“Quem não vê bem uma palavra, não pode ver bem uma alma”

quem não vê bem uma palavra

Quem não vê bem uma palavra, não pode ver bem uma alma.

Fernando Pessoa é um dos mais conhecidos poetas e escritores portugueses. Nasceu em 13 de junho de 1888 (dia de santo António) e faleceu em 1935. Enquanto poeta, desdobrou-se em múltiplas personalidades – os seus heterónimos. Os três heterónimos mais conhecidos (e aqueles que assinaram a maior parte da sua obra poética) foram Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. “Mensagem”, uma coletânea de poemas sobre grandes personagens históricas portuguesas, foi o único livro (em língua portuguesa) publicado em vida por Fernando Pessoa.

“Costumo dizer que me vou doutorando na vida, vivendo-a”

“Estranha Incógnita” é a primeira coletânea do poeta açoreano Brazídio César. Com apresentação pública marcada para 14 de novembro (sábado), na biblioteca pública de Ponta Delgada, a poesia de Brazídio César é uma partilha genuína dos sentimentos e momentos íntimos do quotidiano deste autor. O poeta reflete aqui sobre o caráter da amizade, do amor, da infância, da felicidade, da vida e até da própria morte.

Brazídio César

O que o fez começar a escrever?

Desde que me recordo, sempre que podia escrever, fazia-o. Era um hobby, um refúgio e um porto de abrigo. Colocar no papel aliviava-me, talvez seja pelo mundo onde vivia, onde sobressaía a violência doméstica e o álcool. Muitos dos meu amigos dizem que fui criado em dois mundos, um na realidade do dia-a-dia e outro no meio da violência e entre pessoas que não me deixavam evoluir. O meu contacto com a escrita era como um diário e também escrevia textos que alguns amigos me pediam para algumas cerimónias. E sou um romântico, também abordava as minhas namoradas com poesia.

Porque publica agora a sua primeira coletânea poética?

Há quatro anos dediquei-me aos estudos, entrei num curso de assistente administrativo. Numa das disciplinas de português, uma das formadoras incentivou-me a participar num concurso literário regional. Desde então, sempre fui escrevendo e enviando emails a algumas editoras. A Capital Books foi a editora que acreditou no meu projeto. Apostei então na realização deste sonho.

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“Era preciso agradecer às flores”

poesia sophia mello breyner

Era preciso agradecer às flores.
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
Duma manhã futura.

Escreveu Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), a primeira poetisa portuguesa a receber o prémio Camões (o mais importante galardão literário da lusofonia). Sophia era filha de Maria Amélia de Mello Breyner e de João Henrique Andresen. Tem origem dinamarquesa pelo lado paterno, já que o seu bisavô, Jan Heinrich Andresen, desembarcou um dia no Porto e nunca mais abandonou esta região. A mãe, Maria Amélia de Mello Breyner, era filha do Tomás de Mello Breyner, conde de Mafra, médico e amigo do rei D. Carlos. Maria Amélia era também neta do conde Henrique de Burnay, um dos homens mais ricos do seu tempo. O corpo de Sophia de Mello Breyner Andresen está depositado no Panteão Nacional, desde 2014.

Pablo Neruda: “se nada nos salva da morte, pelo menos que o amor nos salve da vida”

Pablo Neruda

“Se nada nos salva da morte, pelo menos que o amor nos salve da vida”.

Pablo Neruda (1904-1973) foi um poeta chileno, um dos mais importantes da língua espanhola e reconhecido com o prémio Nobel da literatura. Em 1921, mudou-se para Santiago do Chile e estudou pedagogia na universidade local. Em 1927, iniciou uma longa carreira diplomática, sendo nomeado cônsul em Rangum, na Birmânia. Nas suas múltiplas viagens, conheceu o poeta espanhol Federico Garcia Lorca. Em 1965, recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela universidade de Oxford, Grã-Bretanha. Em outubro de 1971, recebeu o Nobel de literatura. Após receber este prémio, Neruda foi convidado por Salvador Allende para ler perante mais de 70 mil pessoas, no Estádio Nacional do Chile. Morreu em Santiago, em 23 de setembro de 1973.

“As mulheres portuguesas ainda se sentem desconfortáveis para falarem livremente sobre sexo”

Judite Carreira publicou a sua primeira coletânea poética no passado mês de julho, pela Capital Books. Intitulada “Palavras Ousadas de Ju”, esta é uma coleção de poesia erótica, profusamente ilustrada com sugestivas imagens e onde perpassam o amor, o desejo e a volúpia. Esta obra nasceu da página homónima no Facebook, que começou como um simples devaneio e evoluiu para um sólido projeto de literatura poética.

Judite Carreira

Judite Carreira, quem é a mulher que se esconde atrás do pseudónimo Ju?

Nasci em 1971, em França e vivo agora em Leiria. Sou funcionária pública, divorciada e mãe de um adolescente espetacular. Defino-me como uma batalhadora, uma mulher com m grande, empenhada em tudo o que me proponho e mãe 24 horas por dia. Quando a noite chega e o silêncio se instala, a Ju é a sonhadora, a amante e a ousadia em pessoa. A autora, nasceu há pouco tempo, após um desgosto amoroso, num desassossego de alma incompreendida. Adoro ler, sempre quis escrever, mas só agora me atrevi. Nas horas vagas, rabisco poemas. Tentei antes escrever, quando era mais nova, mas olhava para os meus textos e achava que não prestavam. Apesar disso, participei em algumas publicações pontuais, em duas coletâneas. Agora com 44 anos e alguma maturidade, surgiu a vontade de traduzir o que me ía na alma. Por vezes, histórias reais, outras imaginárias, mas sempre espicaçando quem me lê.

As suas palavras ousadas escancaram tabus sobre o amor, o erotismo e o sexo. De onde vem esta força?

Que seria de nós sem o amor, o erotismo e o sexo? Sempre me senti à vontade para falar sobre estes temas, sempre me interessei por eles e gosto de provocar. Diverte-me brincar, seduzir e espicaçar o leitor e o feedback tem sido bastante positivo, tanto por parte dos homens, como das mulheres. Num registo atrevido e levemente pornográfico, abordo subtilmente o tema do sexo com amor: abordá-lo descaradamente iria ferir mentes mais conservadoras. Apraz-me abanar um pouco a demência sexual, sem contudo chocar os leitores.

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Como Miguel Cervantes se deslumbrou por Lisboa

Miguel de Cervantes

“Confia no tempo, que costuma dar doces saídas a muitas amargas dificuldades”.

Miguel de Cervantes Saavedra (1547–1616) foi um romancista, dramaturgo e poeta castelhano. A sua obra-prima, Dom Quixote, considerada como o primeiro romance moderno, é um clássico da literatura ocidental e apontado como um dos melhores romances já escritos. A influência do trabalho de Miguel Cervantes é tão grande, que o castelhano é também conhecido como a língua cervantina. O escritor espanhol viveu durante dois anos em Lisboa, entre 1581 e 1583, acompanhando o rei castelhano (Filipe I de Portugal), que rodeado dos seus cortesões esteve também em Lisboa durante esse período. O austero monarca espanhol trocou aqui a monotonia das suas roupas negras e golas brancas, pelos ricos, coloridos e vistosos tecidos de Lisboa. O ambiente festivo e faustoso de Lisboa encantou então Miguel Cervantes, que descreveu os lisboetas como corteses e apaixonados e terá afirmado “para festas Milão, para amores Lusitânia”.

“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”

deus quer o homem sonha a obra nasce

“Mensagem” é uma coletânea de 44 poemas de Fernando Pessoa, publicado em 1 de dezembro 1934 (dia comemorativo da Restauração) e apenas um ano antes da sua morte. Foi contemplado, logo neste ano da sua publicação, com o prémio Antero de Quental, atribuído pelo Secretariado Nacional de Informação, então dirigido por António Ferro. A obra trata do passado glorioso de Portugal, num estilo sebastianista e valorizando os antigos heróis e descobridores portugueses. O poema “O Infante” é um dos mais conhecidos de Fernando Pessoa e tem uma versão musicada por Dulce Pontes.

O livro mais triste de Portugal

Só

“Só”, livro que reúne poemas de António Nobre, foi publicado em 1892 e é o livro mais triste que há em Portugal, segundo o seu próprio autor. António Nobre (1867–1900) foi um poeta português, que se enquadrou nas correntes ultra-românticas e simbólicas, próprias do final do século XIX. “Só” é uma coletânea poética marcada pela lamentação e nostalgia, ainda que suavizada pela presença de um fio de auto-ironia. António Nobre faleceu com 32 anos, após uma luta prolongada contra uma tuberculose pulmonar. Dá nome ao jardim do miradouro de São Pedro de Alcântara, em Lisboa.

García Lorca: o poeta fuzilado pelos fascistas espanhóis

Garcia Lorca

“Há coisas encerradas dentro dos muros que, se saíssem de repente para a rua e gritassem, encheriam o mundo”.

Federico García Lorca (1898-1936) foi um notável poeta e dramaturgo espanhol e uma das primeiras vítimas da guerra civil espanhola. Nasceu na Andaluzia e estudou na faculdade de Direito de Granada. Mudou-se, em 1928, para Madrid onde conviveu com Salvador Dalí e Luis Buñuel. Para além da poesia, dedicou-se à pintura e à música (exímio pianista). Viveu ainda nos Estados Unidos da América e em Cuba, antes de retornar a Espanha, onde criou o grupo teatral La Barraca. Aqui, as suas posições socialistas e republicanas e o facto de ser homossexual assumido, trouxeram-lhe crescentes dissabores. As suas primeiras composições poéticas inspiraram-se na música e folclore andaluzes, bem como na comunidade cigana desta região. A passagem pelos EUA produziu-lhe um horror pela civilização mecanizada, que denunciou em “Poeta em Nova Iorque”, publicado postumamente. No dia 19 de agosto de 1936, García Lorca foi fuzilado à queima-roupa por fascistas espanhóis, numa estrada nas proximidades de Granada. Morreu aos 38 anos e os seus restos mortais nunca foram encontrados.

“Ser poeta é ser mais alto, ser maior do que os homens!”

Ser poeta é ser mais alto

Ser poeta é ser mais alto, ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor.

Florbela Espanca (1894–1930) foi uma das mais ilustres poetisas portuguesas do século passado. Batizada como Flor Bela Lobo, preferiu autonomear-se Florbela d’Alma da Conceição Espanca. Nasceu em Vila Viçosa e trabalhou como jornalista, professora de português e tradutora. Faleceu em Matosinhos, no dia do seu próprio aniversário, em 8 de dezembro de 1930. A causa desta morte, por suicídio, foi uma sobredosagem de barbitúricos. A sua vida – de apenas 36 anos – foi repleta de sofrimento amoroso, que esta poetisa soube transformar em versos carregados de erotização e feminilidade.