“Resolvi fazer este livro como forma de agradecimento”

“Notas perdidas pelo telemóvel” é o mais recente livro de Pedro Rodrigues. Uma compilação de notas literárias, que o autor reuniu para agradecer aos seus leitores.

Pedro Rodrigues

“Notas perdidas pelo telemóvel é um livro singular”, o que é que fizeste aqui?

Peguei no que já estava feito: algumas notas perdidas pelo telemóvel e pelos cadernos. Resolvi fazer uma compilação. É um livro cru. Não houve qualquer edição das notas. Tenho pena de não conseguir passar também as partes que estavam riscadas. Seria engraçado.

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“Há cidades que nos absorvem até um dia fazerem parte de nós”

Pedro Rodrigues

Imagino-te cantada por vozes de que não conheço o rosto. Através das quais invento esquinas, perpetuadas entre o musgo e as fissuras do tempo. És bela como cidade, como menina, como moça. E cheiras bem: como se me sentisse em casa, mesmo estando longe.

Construímos cidades por dentro, com o que apanhamos por fora. De ti, de momento, vou guardando as luzes diluídas na noite. Os barulhos dos aviões a levantarem voo, ou a aterrarem. Os passeios à beira rio, a olhar a outra margem. As buzinadelas estridentes, que me fazem acordar de manhã.

Não há canções suficientes para seres cantada. Não há postais suficientes para que quem chega te consiga levar até outros lugares e te explicar. Se em todas as tuas ruas me perco, em todas as tuas ruas me encontro. Se soubesse cantar, cantava-te. Se soubesse desenhar, desenhava-te. Não sei. Fico-me pelas palavras: ferrugentas, ásperas, curtas. Fico-me pela imagem da minha sombra a namorar a tua calçada e as tuas paredes. Fico-me pela velocidade vertiginosa das tuas gentes, das quais, agora, faço parte. Há um fado escrito com as águas do teu Tejo. Um país que gira em torno do teu eixo.

Dizem que casa é algo que se encontra – não é um ponto fixo num mapa. Deve ser por isso que começo a construir paredes à tua volta. A ver-te crescer por dentro, com todas as avenidas e ruas periféricas. Há ilhas na corrente. E cidades que nos absorvem, até um dia, sem darmos conta, fazerem parte de nós.

PedRodrigues

“Estou a preparar-me para dar voz à minha geração”

Pedro Rodrigues nasceu na Figueira da Foz, vive em Coimbra e é reconhecido como um dos melhores escritores portugueses desta nova geração. Para contrariar o seu reservado perfil pessoal, quisemos saber mais sobre o homem por detrás do escritor.

Pedro Rodrigues

És um rapaz de 28 anos, mas já contas com dois livros publicados. Foi assim tão fácil?

Aprendi, com o tempo, que nada é fácil. Tive a sorte de alguém ter encontrado os meus papéis perdidos pelas gavetas e me ter incentivado a criar o blog. Mas nem a decisão de mostrar ao mundo os meus textos foi fácil. Depois disso, o resto é história. Quando penso no meu percurso desde novembro de 2010 até hoje, vem-me sempre à cabeça uma passagem de uma crónica do Miguel Sousa Tavares, que li quando era muito jovem e me tem servido de mantra ao longo dos anos: “quem é bom, acaba fatalmente por se impor”. Até pode parecer presunçoso da minha parte, mas é esta a verdade. E ser bom, mais que uma caraterística da pessoa, é algo que se procura. E procuramos, caminhando, sem desistir.

Como é que fazes para escrever? Isolas-te no teu quarto durante uma semana, ou vais para uma esplanada na praia e bebes umas imperiais?

Não há melhor aliado que o silêncio. No entanto, precisamos de viver para escrever. Portanto, tudo pode começar no café, entre amigos. Posso começar a escrever aí. Porque a atenção ao detalhe é importantíssima. Porque ouvir, ver, cheirar, provar, tocar é necessário.

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