O fantasma de Natal da tia Emília

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Desde que se recordava, aquele canto da sala era o local oficial da árvore de Natal. E esta era sempre montada no fim-de-semana mais próximo do dia 8 de Dezembro, sempre desligada no dia 7 de Janeiro (dia seguinte ao dia de Reis) e desmontada no sábado seguinte (se este não fosse o próprio dia 7 de Janeiro). Tradições de família, que se foram cristalizando ao longo de décadas. Este 10 de Dezembro era um dia de sol e céu azul, que dissimulava o frio que se sentia do lado de lá dos vidros das portadas de madeira, pintadas de branco. Alberto e o seu sobrinho adolescente olhavam, do meio da sala, o esqueleto verde-plástico da árvore tida como ecologicamente responsável, que acompanhava a família há vários anos. Avaliavam a simetria com que os galhos foram por eles abertos, o ângulo com que a luz incidiria através da janela. Antecipavam os ornamentos e luzes que, dali a uma horas, a tornariam exuberante.

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Era uma vez o Natal

Ele viu-a. Mas ela não o viu. Porque tudo o que ela conseguia ver eram fantasmas, saídos e mantidos numa escuridão que a envolvia e não lhe dava tréguas. Ele viu-a. Dias a fio ele viu-a, deambulando a caminho das obrigações que a vida lhe impunha. A caminho de cada lado, nenhum que lhe permitia manter o mínimo de condições para seguir em frente. Mais ninguém a viu, mas ele sim. Ele viu, escondido atrás da velha sebe que separava a casa dela do resto do mundo, quando ele se foi embora. Entregando-a sem misericórdia ao desespero da sorte que teimava em lhe fugir. Ele viu o que o resto do mundo teimava em ignorar, viu os encolher de ombros alheios, os olhares de pena que teimavam em se esconder e de nada lhe serviam, a ela.
Ele viu-a e sentiu o seu pequeno coração apertar-se a cada pegada profunda que os pés dela desenhavam na neve branca do caminho que percorria todos os dias. Era inverno e era Natal. E por isso havia neve.

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O meu querido dezembro!

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– Adoro o mês de dezembro! – exclamou a mãe.

– Deus me livre! Que horror! Só frio, chuvas, neves que não nos deixam passar na estrada! – gritou o pai.

– Claro que isso ninguém gosta, mas adoro Dezembro! – disse a mãe muito sonhadora.

– Iá! Eu também adoro dezembro, quando fazem desconto na net e oferecem 5 gigas de net para o meu telemóvel! – disse Bianca, enquanto mexericava no telemóvel.

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Oíche Nollag – um conto de Natal da autora MBarreto Condado

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Estava sozinho, prostrado perto da enorme janela da sala, os olhos colados na escuridão da noite. Apesar de pouco distinta àquela hora, a paisagem lá fora tão sua conhecida continuava a acalmá-lo tal como sempre fizera mesmo nos momentos em que andara perdido na escuridão mais glacial que atormentara a sua alma. O vento frio que se fazia sentir e que agitava os freixos não conseguia penetrar no calor do seu lar, naquela casa onde o amor continuava a ser a chama permanente que os aquecia. Caminhou até à lareira onde colocou mais turfa, a sua única função naquela noite era mantê-la acesa e esperar. Contudo, o tempo parecia não querer passar ou então era ele que estava mais ansioso, afinal aquela seria uma celebração diferente, uma reunião de família onde pela primeira vez estariam todos juntos.

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Uma questão de escolhas

casal gay

A noite era negra, imperfeita e ácida, gelada como vidro fazendo parar os pensamentos. Naquela avenida infinita tudo estava parado no tempo, até a vida de André. Sentado no asfalto, encolhe-se e enrosca-se no casaco de malha que traz vestido para enganar o frio que lhe consome o corpo e a alma; parece ser a única coisa que lhe resta: não tem mais nada, nem um mero pedaço de pão. A fome, essa, já aperta há algum tempo; mas eles tiraram-lhe tudo, deixando-o sem nada: sem dinheiro, sem vontade de viver, sem alegria até a dignidade lhe roubaram. O direito a ser feliz, e a fazer as suas escolhas; o direito a um teto, a segurança e proteção; o direito a ter uma verdadeira família.

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Regresso adiado

amor

Há muito tempo que me tinhas pedido para recomeçarmos tudo de novo, mas eu continuava a dar-te uma resposta no silêncio: “talvez… quem sabe, um dia! Ou talvez não; talvez nunca mais, talvez até nem volte a resultar”. Por não me sentir preparada para esse voltar ao teu lado; no vidro do carro num dia de chuva encontrei um pequeno pedaço de papel com a tinta já desbotada – devia estar ali há horas! – que dizia: “volta”.

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