“Na vida existem todas as orientações sexuais”

Miguel Agramonte é o mais profícuo dos autores gays em Portugal. Acaba de lançar “Amar de olhos fechados”, depois do seu primeiro título ter atingido o estatuto de livro de culto. Fomos conversar para saber mais sobre os seus romances e projetos.

miguel agramonte

Como tem sido a recepção dos leitores ao teu novo romance?

Muito boa! Se tivesse que escolher uma palavra para a classificar, escolheria paixão. Desde o primeiro momento que os comentários que tenho recebido têm sido excelentes, com alguns leitores a assumirem terem ficado apaixonados por algumas das personagens. Há opiniões muito positivas publicadas nas páginas do Facebook, enquanto que outras foram-me transmitidas pessoalmente. Também é muito interessante o facto de as pessoas referirem que começam a ler e só conseguem parar na última página e várias delas sugerirem continuações para a história, pegando em diversas formas de o fazer. O livro foi lançado há pouco tempo mas, sinceramente, a forma como está a ser acolhido superou as minhas expectativas.

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O fantasma de Natal da tia Emília

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Desde que se recordava, aquele canto da sala era o local oficial da árvore de Natal. E esta era sempre montada no fim-de-semana mais próximo do dia 8 de Dezembro, sempre desligada no dia 7 de Janeiro (dia seguinte ao dia de Reis) e desmontada no sábado seguinte (se este não fosse o próprio dia 7 de Janeiro). Tradições de família, que se foram cristalizando ao longo de décadas. Este 10 de Dezembro era um dia de sol e céu azul, que dissimulava o frio que se sentia do lado de lá dos vidros das portadas de madeira, pintadas de branco. Alberto e o seu sobrinho adolescente olhavam, do meio da sala, o esqueleto verde-plástico da árvore tida como ecologicamente responsável, que acompanhava a família há vários anos. Avaliavam a simetria com que os galhos foram por eles abertos, o ângulo com que a luz incidiria através da janela. Antecipavam os ornamentos e luzes que, dali a uma horas, a tornariam exuberante.

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“É um livro que aborda o suicídio e que também fala de homofobia”

Filipe Vieira Branco é o autor de “Deixa-me ser”, um título autobiográfico que conta a sua experiência pessoal no processo de assumir publicamente a homossexualidade. É um livro que aborda na primeira pessoa a homofobia, mas também amor e aceitação.

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De que trata este teu novo livro, que tem um caráter autobiográfico?

Conta a história do meu coming out, do que foi assumir-me como homossexual junto da minha família aos 20 anos e de tudo o que se passou depois disso. É um livro que aborda de forma muito direta o suicídio e que na sua essência fala também de homofobia, preconceito, mas também de amor e aceitação. E fala de outro assunto, que nunca referi na divulgação, porque quero que seja uma surpresa total para quem vai ler. É um assunto ainda mais tabu que a homossexualidade ou o suicídio. É algo de que ninguém quer falar. E sei que vai ser um choque para a maioria das pessoas, mas foi por isso mesmo que o escrevi.

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“Desejava que as vendas acontecessem pelo conteúdo e não por ser um livro gay”

Miguel Agramonte escreveu “Quando tu nos mentes”, um romance gay que aborda de forma despudorada o tema das traições nas relações amorosas. Meio ano depois da sua publicação, perguntamos ao autor de que forma este título foi recebido pelos leitores.

miguel agramonte

Como foi a receptividade do público ao teu primeiro livro?

Bastante positiva, melhor do que eu esperava. Primeiro porque sou um autor desconhecido – “Quando tu nos mentes” foi o meu primeiro livro editado –, depois por se tratar de uma história homossexual. Ambas as situações poderiam limitar, à partida, a receptividade ao livro. No entanto, três aspectos contribuíram para o que se verificou: o lançamento do livro em Lisboa,  o processo de venda e o facto de a primeira impressão ter-se esgotado na Feira do Livro de Lisboa.Também muito agradável tem sido a interacção com leitores desconhecidos, principalmente através de mensagens que recebo no Facebook e com quem, na maioria, vou mantendo um contacto pontual e descontraído.

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Uma questão de escolhas

casal gay

A noite era negra, imperfeita e ácida, gelada como vidro fazendo parar os pensamentos. Naquela avenida infinita tudo estava parado no tempo, até a vida de André. Sentado no asfalto, encolhe-se e enrosca-se no casaco de malha que traz vestido para enganar o frio que lhe consome o corpo e a alma; parece ser a única coisa que lhe resta: não tem mais nada, nem um mero pedaço de pão. A fome, essa, já aperta há algum tempo; mas eles tiraram-lhe tudo, deixando-o sem nada: sem dinheiro, sem vontade de viver, sem alegria até a dignidade lhe roubaram. O direito a ser feliz, e a fazer as suas escolhas; o direito a um teto, a segurança e proteção; o direito a ter uma verdadeira família.

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Filipe Vieira Branco parte para Florença com bloco de notas

Filipe Vieira Branco

Filipe Vieira Branco parte para a vila italiana de Forli (nas proximidades de Florença) no dia 6 de outubro, para trabalhar como voluntário num projeto educativo para crianças com necessidades especiais. O autor diz-se entusiasmado com a experiência porque “vou estar noutro país, noutra cultura. Mas sobretudo porque vou trabalhar, como voluntário, com crianças portadoras de deficiência e que têm necessidades especiais. Estou ansioso para começar”. Filipe garante que, no entanto, continuará a escrever durante os 10 meses da sua permanência na Itália: “planeio escrever muito. Vou ter muitas novidades para contar. E até já comprei um bloco de notas, que irá servir-me exclusivamente como diário nos meus dias por lá. Quem sabe se não dá depois para um novo livro…”. Depois do lançamento do seu primeiro livro “O dia em que nasci”, em abril deste ano, o autor embarcou numa pequena digressão literária: “tem sido um ano incrível. Cada apresentação foi única, em sítios muito diferentes. Até apresentei o meu livro numa prisão! Alguma vez imaginei que isso fosse possível? Nunca!”. Os projetos deste jovem autor passam agora pela preparação de um novo título, que versará sobre a sua revelação pública como gay. Comenta ainda o FIilipe: “depois de ter anunciado o meu livro biográfico, que simplificando fala sobre a minha vida como homossexual, tenho recebido montes de mensagens e comentários de apoio. É tudo muito novo para mim, mas é muito, muito bom viver isto”.

“Tu gostas de rapazes, não é?”

Filipe Vieira Branco é um jovem autor que, depois da publicação do seu primeiro título – “O dia em que nasci” – prepara agora o lançamento de um livro autobiográfico, onde relata as dificuldades decorrentes da revelação familiar e pública da sua condição homossexual. Esta é, em exclusivo, a pré-publicação das primeiras palavras desse novo livro (ainda sem título), evidenciando já as linhas mestres do que aí vem.

Filipe Vieira Branco

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García Lorca: o poeta fuzilado pelos fascistas espanhóis

Garcia Lorca

“Há coisas encerradas dentro dos muros que, se saíssem de repente para a rua e gritassem, encheriam o mundo”.

Federico García Lorca (1898-1936) foi um notável poeta e dramaturgo espanhol e uma das primeiras vítimas da guerra civil espanhola. Nasceu na Andaluzia e estudou na faculdade de Direito de Granada. Mudou-se, em 1928, para Madrid onde conviveu com Salvador Dalí e Luis Buñuel. Para além da poesia, dedicou-se à pintura e à música (exímio pianista). Viveu ainda nos Estados Unidos da América e em Cuba, antes de retornar a Espanha, onde criou o grupo teatral La Barraca. Aqui, as suas posições socialistas e republicanas e o facto de ser homossexual assumido, trouxeram-lhe crescentes dissabores. As suas primeiras composições poéticas inspiraram-se na música e folclore andaluzes, bem como na comunidade cigana desta região. A passagem pelos EUA produziu-lhe um horror pela civilização mecanizada, que denunciou em “Poeta em Nova Iorque”, publicado postumamente. No dia 19 de agosto de 1936, García Lorca foi fuzilado à queima-roupa por fascistas espanhóis, numa estrada nas proximidades de Granada. Morreu aos 38 anos e os seus restos mortais nunca foram encontrados.