O unicórnio do Pai Natal

pai natal

Um conto de Natal de Miguel Agramonte

– Um unicórnio??? – perguntou Rudolfo com um ar estupefacto, começando a andar nervosamente em círculos pelo salão aquecido e em parte iluminado pela grande lareira. O som dos passos irritados era abafado pelas pantufas farfalhudas: – O velhote enlouqueceu de vez?

Faltavam poucos dias para a chegada do Inverno e, no exterior da casa, a neve caía com intensidade, à semelhança do que viera acontecendo nas semanas anteriores. Contudo, apesar da temperatura extremamente baixa que se fazia sentir, algumas das suas companheiras ainda não tinham voltado do exercício físico ao ar livre. Trabalhavam, apenas, 24 horas por ano, sem parar. Mas, a dureza dessa atividade anual obrigava-as a estarem o mais exercitadas possível e o plano de exercícios físicos começara a ser rigorosamente cumprido havia meses. O aproximar da data fazia com que estes viessem a ser cada vez mais exigentes.

– Mas o que lhe deu para decidir uma coisa dessas? – continuou, com o nariz enrubescido, tão grande era a sua indignação.

Dançarina olhava-a naquele estado alterado, enquanto ceava lentamente. Não era a primeira vez que Rudolfo fazia uma cena daquelas, mas o sereno feitio dela não lhe permitia ser influenciada pelo histerismo. De certa forma, isso desconcertava um pouco Rudolfo porque, na sua opinião, todas deveriam estar, no mínimo, tão revoltadas quanto ela. Trovão praticamente ignorava o que ia acontecendo. Os berros e o descontrolo da companheira não eram suficientes para a importunarem e, tal como Dançarina, comia calmamente, olhando-a, perguntando-se como é que ela ainda tinha paciência para aquilo.

– Não vejo qual é o problema – comentou, secamente, Dançarina que, tal como Rudolfo e Trovão, optara por treinar mais cedo, naquela noite.

– Perdi o apetite. Totalmente.

– Mais fica – informou Trovão, sem levantar os olhos do prato. – Está delicioso, para além de que, depois do treino, ainda melhor sabe. O meu conselho é que comas, enquanto está quente, e verás que o drama desaparece.

– O drama? Agora, para ti, também é um drama?

Trovão elevou os olhos e Dançarina riu-se com a expressão que ela fez. Rudolfo pôs-se à sua frente com um pulo e abriu os braços para o ar.

– Desde quando é que o trenó do Pai Natal é puxado por nove renas e um unicórnio?!

Trovão continuou a mastigar, olhando-a naquela pose de final de musical da Broadway, com as pernas abertas, pantufas enfiadas nos pés, roupão berrante de bordas brancas com um brasão artesanalmente bordado a dourado no lado esquerdo, braços abertos e olhos fixados em si.

– Desde que ele decidiu – antecipou-se Dançarina.

Rudolfo virou bruscamente apenas a cabeça na direção da companheira. Não acreditava no que ouvia, na falta de solidariedade que, também ela, demonstrava.

– Por mim é ótimo. – informou Trovão. – Mais alguém a puxar o trenó significa menos esforço para todas nós.

– Mas vocês não entendem que é uma questão de princípio? De tradição? No momento em que esta se perder, o mundo estará perdido! Estamos a falar do Natal, da distribuição de presentes pela criançada, das renas do Pai Natal! Querem uma tradição mais forte do que esta? É isto que querem destruir?

Dançarina fez uma pausa, ergueu-se e, pela primeira vez desde que aquela conversa exaltada começara, olhou profundamente nos olhos de Rudolfo.

– A tradição também dizia que eram oito renas que puxavam o trenó do Boss. Tanto que os trenós estão preparados para oito renas e não nove, não é, Rudolfo?

Parecia que, da linha que amarrava o olhar de ambos, saltavam faíscas.

– E ninguém fez nenhuma cena quando o Boss nos informou que teríamos mais uma companheira – continuou Trovão. – Neste caso, tu.

Rudolfo sentiu-se atingido. Amoleceu a pose e virou as costas, dramaticamente, às companheiras, ficando a contemplar a lenha que ardia, parecendo inspirar-se nas longas labaredas que subiam, desaparecendo pela chaminé.

– Vocês sabem muito bem a utilidade incomensurável que eu trouxe ao grupo! – argumentou, com a voz tremida. – Já se esqueceram por que fui incluída na equipa?

– Como nos poderíamos esquecer? O teu nariz passou a ser muito útil para nos guiar durante as tempestades de neve. Ninguém se esquece como a nossa vida era muito mais difícil antes disso, está descansada – relembrou Dançarina.

– Para além de que passou a ser menos difícil para todas nós puxarmos aquele mamarracho carregado de presentes fabricados pelos malditos duendes e, ainda, com o Boss lá dentro, pelos céus do mundo, durante as 24 horas da noite de 24 de dezembro – rematou Trovão.

Rudolfo virou-se de forma repentina para as duas companheiras, fazendo com que o roupão voltasse a ondular dramaticamente.

– Precisamente! A minha contratação foi preciosa para o aumento da produtividade da logística da distribuição dos presentes e para as melhorias das condições de trabalho, nomeadamente a diminuição do esforço da mão-de-obra necessária para o processo!

Trovão olhou para Dançarina, limpou a boca e preparou-se para falar.

– Vejo que o curso intensivo de gestão, no Verão, foi de grande utilidade. Mas é casco-de-obra.

Rudolfo optou por ignorar a provocação e continuou a sua argumentação.

– Então, que raio é que o unicórnio vem trazer? Qual a sua mais-valia para a equipa?

– Diversidade – respondeu Dançarina, calmamente. – Uma mais-valia não só para a equipa, mas também para o mundo.

As portas abriram-se de par em par, com um estrondo que sobressaltou as três companheiras. Empurradas pelo vento, flocos de neve foram arrastados para o interior da casa, enquanto Corredora e Relâmpago não as conseguiram fechar.

– Chegámos mais cedo – informou Corredora.

– Acho que estamos em melhor forma do que as restantes – brincou Relâmpago. – O que se passa? – perguntou, logo de seguida, assim que sentiu o clima pesado.

– O que vocês sabem do unicórnio? – disparou Rudolfo, de braços cruzados. – A pergunta foi bem direta e espero uma resposta sem divagações, evasões ou rodeios.

As renas recém-chegadas entreolharam-se com espanto.

– A mais recente contratação do Boss?

– Temos que achar alguma coisa?

O nariz de Rudolfo atingiu um novo nível de vermelhidão. Parecia prestes a explodir, tamanha era a quantidade de raiva acumulada no seu interior.

– Pelos vistos, sou mesmo a última a saber das coisas por aqui! Devo ser corno e ainda não dei conta!

– Na verdade, Rudolfo, todas temos cornos lindos, mas nada que se comparem ao corno de um unic…

– Calada!!! – gritou Rudolfo, fora de si! – Já não aguento essa história! Diversidade, Dançarina? Diversidade? Essa coisa do politicamente correto também já chegou à Lapónia? – Rudolfo tremia de raiva. – Onde é que há chá nesta casa? Preciso de um de camomila para acalmar! Quem apagou a luz da cozinha??? – ia perguntando, enquanto se afastava a passos largos.

– Que gritos são estes? – perguntou Cometa, que acabara de chegar com Cupido, sacudindo a neve que teimava em se manter agarrada aos seus pelos.

– O Rudolfo está a fazer uma das suas cenas dramáticas – informou Relâmpago.

– Fala baixo, Relâmpago – pediu Cupido. – Ela vai ouvir e depois vai sair nervosa às voltas por aí “para arrefecer a cabeça” e já sabes como a história acaba: o Boss vai mandar-nos todas à procura dela.

– Tens razão – concordou Cometa. – Da última vez demorámos horas a encontrá-la. A Raposa deu com ela em cima da ópera de Sydney, agarrada a uma caixa de lenços de papel com perfume de jasmim, jurando nunca mais querer ver a nossa cara – olhou para o exterior, através das janelas. – E o tempo está péssimo para voltar a sair – concluiu, com um arrepio.

– Sinceramente, não consigo entender a resistência dela à chegada de um novo…

Corredora não conseguiu acabar a frase, porque foi interrompida com a reentrada de Rudolfo na sala. Aproveitara a ausência para recompor o roupão grosso e trazia uma chávena de chá fumegante, que beberricava.

– Já pararam de falar nos meus lombos? – inquiriu, olhando para todas, para depois dar mais um gole no chá, semicerrando os olhos, por causa da temperatura daquele.

Por fim, chegaram Raposa e Empinadora. A partir daquele momento, todas as renas do Pai Natal estavam reunidas.

– Agora que temos quórum, vamos falar disto abertamente – desafiou Rudolfo. – Acabar com esta palhaçada de uma vez por todas.

Raposa riu disfarçadamente e Empinadora rolou os olhos, adivinhando mais uma “crise de diva”, como lhes chamava.

– O que está a acontecer desta vez? – quis saber Raposa.

– O Rudolfo não aceita o facto de o Boss ter contratado um unicórnio para se juntar a nós a partir deste ano – informou Cometa.

– E o drama tem sido intenso – completou Trovão.

– Ele diz que não faz sentido ter mais um elemento, principalmente um que não traz qualquer vantagem ao grupo – acrescentou Dançarina.

– E a diversidade? – quis saber Corredora.

– Outra vez essa merda???? – gritou Rudolfo, entornando quase metade de chá que ainda restava na chávena.

– Bitch, please… – comentou Empinadora, fazendo com que Raposa risse, novamente, baixinho. – Tu, a rena que mais se devia bater por esse tipo de questões, que podem trazer uma maior harmonia ao mundo, és a primeira a criticar?

– Sabes bem o que eu acho. Concordo com essas teorias, mas desde que as ações sejam feitas dentro dos padrões esperados e, acima de tudo, discrição. Porque, insisto, como é que essa gente vai exigir respeito se não se consegue dar ao respeito? Portanto, a tua teoria cai por terra, porque não será um unicórnio escandaloso que ajudará a resolver essas questões.

– Só eu é que estou a ficar incomodada pelo enrustimento de uma rena discreta, fora do meio e sem local? – provocou Empinadora. Todas riram, com exceção de Rudolfo.

– Sei muito bem o que estás a tentar dizer! Não sou gay, Empinadora! Mas, mesmo que o fosse, cada um faz o que muito bem entender com o seu cu, desde que dentro de quatro paredes. E um unicórnio tingido com as cores do arco-íris, a voar com a aurora boreal como pano de fundo, não me parece que seja a coisa mais discreta deste mundo!

– Um dia ainda me conseguirás dar um exemplo de uma revolução feita discretamente, entre quatro paredes – disse Empinadora. – Fazendo o que bem entenderem com o seu próprio cu.

– Já provoquei várias revoluções dessas – confessou Cupido, sem se conter. – Desculpem, sei que fugi ao tema, mas não resisti.

– Rudolfo, tu e a Empinadora são as únicas gays aqui do grupo… – começou por dizer Corredora.

– Não sou gay, não sou gay, não sou gay! – berrou Rudolfo, batendo três vezes com a chávena vazia no tampo da mesa.

– OK! Então, a Empinadora é a única rena gay aqui do grupo – prosseguiu Corredora, piscando o olho à amiga. – E nunca ninguém a criticou por isso. Pelo contrário, amamo-la, tal como ela é!

– Tenho que confessar que, quando soube, não me senti à vontade – informou Trovão, com a sua voz grave. – Mas nunca deixei de a amar. Ela sempre foi uma companheira maravilhosa. Que raio de rena seria eu, se desejasse impedir a sua felicidade?

– Obrigada – agradeceu Empinadora, olhando carinhosamente para Trovão.

– Estou a começar a ficar em estado pré-diabético, com tanto mel – afirmou Rudolfo, num tom jocoso. – Isso tem cura, como deves saber, Empinadora. Há pessoas e métodos que te podem fazer voltar à normalidade.

– Para ficar amarga como tu? Não, obrigada. Nunca! Prefiro ficar diabética.

Rudolfo olhou à sua volta. Fitou os olhos de todas as suas companheiras.

– Rudolfo, achas, sinceramente, que eu, o Trovão, o Cupido ou o Cometa nos importamos com o que os outros animais comentam por sermos renas com nomes masculinos? Sabes quantas vezes já me chamaram “a Relâmpago”, entre risos, apesar de ser o correto? Já me batizaram de travesti invertida, reno em corpo de rena, erro do Polo Norte e sei lá que mais. Fiquei magoada? Sim. Hoje importo-me? Não.

– E é por isso que um unicórnio a puxar o trenó que distribui os presentes do Boss pode fazer a diferença. É pouca coisa? Sem dúvida. Mas é visível, tem impacto e é positiva. E é nisto em que todas nós podemos ajudar: pequenas coisas que, aos poucos, possam fazer com que o ser diferente seja visto como algo bom, fazer com que o amor e a compaixão alcancem e conquistem cada vez mais corações, em todo este mundo.

– Um dia entenderás, Rudolfo. E espero, do fundo do coração, que esse dia não seja demasiado tarde. Acima de tudo por ti, para ti.

Rudolfo avançou lentamente em direção à lareira que crepitava. Ajeitou a lenha, o que provocou que algumas fagulhas voassem, estalando. As companheiras olhavam-na e sentiam a batalha que se desenrolava no seu interior. Umas tinham pena, outras tristeza, outras incompreensão. Mas, sem sombra para dúvidas, todas a amavam com igual intensidade. Nunca o Pai Natal escolheria renas que não soubessem o que é o amor e nunca passou pela cabeça do Pai Natal que Rudolfo não fosse uma boa rena. Simplesmente precisava de tempo para aprender a ser feliz. Talvez fosse esse o seu grande desafio, o desafio deste Natal de 2017. Que todos possamos aproveitar os nossos Natais para amarmos um bocadinho mais, de modo a que, no final, aprendamos a sermos felizes. Um Feliz Natal para tod@s!

 

Miguel Agramonte

Natal de 2017

Anúncios

Um pensamento sobre “O unicórnio do Pai Natal

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s