“A escrita faz-nos sentir que quanto mais escrevemos, mais longo é o caminho”

catarina resende

Catarina Resende assina “Acima das tuas possibilidades”, um romance que cruza a ficção com a história recente dos portugueses e que foi publicado em março pela Capital Books. Conversamos com esta autora para saber mais porque e como escreve.

“Acima das tuas possibilidades” é o teu mais recente livro, o que te fez escrevê-lo?

Portugal viveu, muito recentemente, anos muito pesados, fruto das políticas de austeridade que foram adotadas como resposta à bancarrota. Durante esses anos fui-me deixando interpelar por estórias de pessoas, de famílias e de empresas. Estórias indignas e às quais não nos podemos resignar. “Acima das Nossas Possibilidades”, uma expressão muito em voga à época, é um romance para memória futura, que mistura essas estórias, com outras de fé e de amor. E de esperança. E de recomeços. Fui convocada pela frieza da realidade e, quando escrevi, acrescentei-lhe essa crença no futuro que, para mim, é essencial.

Esta é uma história que cruza personagens à procura de um sentido para as suas vidas com elementos da nossa história política mais recente. O que é que há aqui de ficção e de realidade?

Dos meus quatro romances, este é o mais inspirado na realidade recente. Desde logo porque não tive qualquer tipo de preconceito em identificar, no calendário e no mapa, as estórias. Mas, claro, é um romance e, por isso, ficcionado. Não é a história de ninguém em particular, mas creio que muitas pessoas se identificam com as vivências das várias personagens. Enfim, acho sempre que a realidade é a grande inspiradora na ficção e neste caso concreto foi-o de forma clara.

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Quando começas a escrever um novo livro, já tens a história na cabeça ou ela vai-se construindo à medida que a vais escrevendo?

Não há uma única história minha que não tenha sido concebida no momento em que está a ser escrita. A única coisa que é apriorística no meu processo criativo é o princípio da história, a primeira personagem ou a primeira situação em que se encontra. Tudo o resto vai fluindo ao sabor dos dias, ou melhor, da disponibilidade e da disposição dos dias. É isto que mais me encanta na escrita: deixar-me surpreender pela espécie de vida própria que as personagens acabam por ter. A dada altura, sinto que só lhes empresto as mãos e o computador, sendo que tudo o resto são elas que decidem . É maravilhoso!

Os teus dois últimos livros introduzem personagens que já faleceram. Esta recorrência surge de onde?

A morte é, de facto, um tema recorrente nos meus livros. Nunca me questionei muito sobre o assunto, mas a verdade é que ela está sempre lá. Francamente, julgo que terá a ver com a necessidade de aprender a conviver, de forma pacífica, com essa inevitabilidade. Todos os mortos, nos meus livros, são poderosos. Como se a morte os tivesse elevado a um novo estádio de clarividência. E depois, pela minha história pessoal, preciso mesmo de acreditar que os nossos mortos caminham ao nosso lado e os livros que escrevemos – queiramos ou não – deixam sempre transparecer muito de nós.

A construção das personagens dos teus romances inspira-se em pessoas que conheces na vida real ou são simplesmente inventadas?

Eu diria que resultam de misturas de várias pessoas que fui conhecendo ao longo da minha vida. De como se comportaram comigo, de como reagiram a situações de alegrias e de tristezas e também de como gostaria que tivessem reagido. Fazer nascer personagens é sempre um parto doloroso, porque esta mistura, muitas vezes, resulta em incoerência ou fragilidade. Ainda assim, não há melhor do que as fazer nascer e vê-las crescer. Nem totalmente boas, nem totalmente más. Pessoas a tentarem relacionar-se com a vida.

Que parte do que escreves é autobiográfico?

Há uma parte da história do “Acima das Nossas Possibilidades” que é muito próxima da terrível vivência da doença e da perda que assolou a minha vida muito recentemente. Acho que tentei sublimar. De resto, não sendo nada particularmente autobiográfico, não me esforço nada para que as minhas crenças e convicções nãos sejam perceptíveis.

Ao longo dos últimos anos, tens mantido uma produção literária constante. Já te consideras uma escritora?

Não. Mas gostava. Gostava muito. A escrita tem essa coisa fantástica de nos fazer sentir que quanto mais escrevemos, mais longo é o caminho. A minha relação com a língua portuguesa, com a estética e com o estilo não é pacífica, isto é, continuo a achar que o que faço não é suficiente. Tenho muito caminho a percorrer. Tenho de gostar de me ler, o que ainda não acontece. Mas, um dia, quando for velhinha, vou ser escritora.

E daqui para a frente, mais ideias e projetos para novos livros?

A verdade é que estou sem nada: nem ideias, nem grande vontade. Mas, por norma, é a seguir ao verão que a revolução interior começa a emergir e me dá vontade de puxar o computador e começar a criar. Vamos ver se a tradição se cumpre. Por agora, nada.

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