“Na vida existem todas as orientações sexuais”

Miguel Agramonte é o mais profícuo dos autores gays em Portugal. Acaba de lançar “Amar de olhos fechados”, depois do seu primeiro título ter atingido o estatuto de livro de culto. Fomos conversar para saber mais sobre os seus romances e projetos.

miguel agramonte

Como tem sido a recepção dos leitores ao teu novo romance?

Muito boa! Se tivesse que escolher uma palavra para a classificar, escolheria paixão. Desde o primeiro momento que os comentários que tenho recebido têm sido excelentes, com alguns leitores a assumirem terem ficado apaixonados por algumas das personagens. Há opiniões muito positivas publicadas nas páginas do Facebook, enquanto que outras foram-me transmitidas pessoalmente. Também é muito interessante o facto de as pessoas referirem que começam a ler e só conseguem parar na última página e várias delas sugerirem continuações para a história, pegando em diversas formas de o fazer. O livro foi lançado há pouco tempo mas, sinceramente, a forma como está a ser acolhido superou as minhas expectativas.

As duas apresentações do livro que fizeste – uma no Porto, outra em Lisboa – distinguiram-se pelas tertúlias incluídas, ambas versando a integração social dos gays. A tua escrita tem também um pendor interventivo?

Quando se escreve sobre algo socialmente polémico, dando uma maior visibilidade a um tema que uma parte substancial da sociedade preferia que não existisse, acaba-se por criar algo com um pendor interventivo, ainda que esse possa não ser o objetivo. Portanto e assumindo essa realidade, os cuidados com a escrita têm que ser redobrados, porque a responsabilidade é maior. Mas é sempre necessário encontrar um equilíbrio entre o narrar uma história que se pretende boa e o tal pendor interventivo. Porque a linha que separa o fazer os leitores pensarem em conceitos e mundos novos para muitos deles (apesar de, muitas vezes, estarem próximos de si) e uma escrita interventiva, pode ser muito ténue. Neste livro e especialmente com Evans, a personagens trans, senti e debati-me, por diversas vezes, com todos esses desafios.

“Amar de olhos de fechados” é um conto de fadas do tipo mulher pobre encontra homem rico, mas substituindo os arquétipos por duas personagens masculinas homossexuais. A vida é transversal a todas as orientações sexuais?

Sim, é. Porque na vida existem todas as orientações sexuais. Não acredito que haja um amor heterossexual e um amor homossexual, para citar apenas duas orientações possíveis. A vida presenteia-nos com o amor que, depois, é vivido, experienciado, sofrido, celebrado, ostentado, explorado, e sei lá que mais, por pessoas que terão diferentes orientações sexuais.

Quem é que compra os teus livros: homens gays?

Sim, homens gays, mulheres gays e (surpresa?) mulheres heterossexuais. Estas últimas geralmente mães de filhos homossexuais, que desejam conhecer o mundo em que os seus filhos vivem – repara como as coisas tomam rumos com os quais nunca pensamos. Com o meu livro anterior, o “Quando tu nos mentes”, foram vários os casos que chegaram ao meu conhecimento. Geralmente foram os filhos que me informaram (uns mais divertidos, outros mais envergonhados), que emprestaram o livro à sua mãe, porque ela o insistia em ler. Um deles que quase discutiu com a mãe para decidirem quem o leria primeiro! Agora, aquando do lançamento do “Amar de olhos fechado”, conheci pessoalmente duas dessas mães, que fizeram questão de me abraçar. Uma delas teve uma intervenção fantástica no evento de lançamento no Porto, que arrancou uma salva de palmas da assistência.

Um ano depois do lançamento do teu primeiro livro, “Quando tu nos mentes”, o panorama editorial gay continua quase vazio em Portugal. Alguma interpretação para isto?

Se calhar ainda não houve tempo para se demonstrar que há mercado para este género de literatura em Portugal, feita por autores portugueses, porque há muitíssimos livros de autores estrangeiros e ainda bem. Acredito que seja algo que mudará com o tempo. Mantendo as proporções relativamente à dimensão dos países, Portugal não será um mercado com uma procura diferente dos de Espanha ou Brasil, por exemplo.

Como reages ao facto de o “Quanto tu nos mentes” ter esgotado e se estar a tornar uma edição de culto?

Quando me transmitiram essa informação, achei muito divertido. Já sabia que a primeira edição estava esgotada – aliás, eu sou o detentor dos derradeiros exemplares, que já estão reservados. Quanto ao facto de se estar a tornar um livro de culto, tenho-me apercebido através de diversos episódios. Um foi quando, visitando a casa de um amigo em Aveiro, vi o seu exemplar do “Quando tu nos mentes” totalmente destruído: capa vincada, lombada aberta, páginas dobradas e manchadas. Quando lhe perguntei o que tinha acontecido, ele respondeu-me que já tinha perdido a conta às pessoas que o tinham levado emprestado para ler, mas que tinha orgulho em o ter assim, naquele estado. O outro foi quando, na sequência da entrevista live que dei no Facebook da Capital Books, ter mostrado a pilha dos livros que, então, ainda estavam disponíveis . Após isso, houve um leitor que entrou em contacto, informando querer o livro “fosse de que forma fosse”.

Entretanto, já preparas novo livro. Queres revelar um pouco do que ai vem?

Sim, é verdade. Na linha do que gosto de fazer, pretendo que seja algo diferente dos dois anteriores. Portanto, ao contrário deles, este será baseado numa história real. Mas não se trata uma história comum, porque o seu protagonista também não é uma pessoa comum. Pelas circunstâncias, pretendo que seja um livro que tenha episódios com diferentes sentimentos, estados de espírito. Mas será bastante gráfico, também literalmente falando. E mais não posso acrescentar. Vamos aguardar para ver o que sai.

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