O fantasma de Natal da tia Emília

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Desde que se recordava, aquele canto da sala era o local oficial da árvore de Natal. E esta era sempre montada no fim-de-semana mais próximo do dia 8 de Dezembro, sempre desligada no dia 7 de Janeiro (dia seguinte ao dia de Reis) e desmontada no sábado seguinte (se este não fosse o próprio dia 7 de Janeiro). Tradições de família, que se foram cristalizando ao longo de décadas. Este 10 de Dezembro era um dia de sol e céu azul, que dissimulava o frio que se sentia do lado de lá dos vidros das portadas de madeira, pintadas de branco. Alberto e o seu sobrinho adolescente olhavam, do meio da sala, o esqueleto verde-plástico da árvore tida como ecologicamente responsável, que acompanhava a família há vários anos. Avaliavam a simetria com que os galhos foram por eles abertos, o ângulo com que a luz incidiria através da janela. Antecipavam os ornamentos e luzes que, dali a uma horas, a tornariam exuberante.

Eram os únicos acordados, o que lhes dava um prazer maior. Na TV, ligada com o som baixo, quase silenciada, passava um episódio de Futurama (série do agrado de ambos) e as caixas cheias de bolas, anjinhos, corações e demais ornamentos carregados de purpurina aguardavam poder brilhar, uma vez mais, à luz do dia, após onze meses fechadas no sótão. O cheiro muito próprio da árvore e das caixas trazia a Alberto recordações da sua infância, quando este evento, tão ansiado, era vivido, com emoção, por toda a família. A sua mãe e os seus irmãos juntavam-se ao redor da árvore, comentando e revivendo a história dos enfeites mais marcantes, enquanto a iam montando. Hoje, todos cresceram e também isso mudara. O seu pai falecera, a sua mãe já não tinha paciência e os seus irmãos tinham saído de casa, cada um com o seu cônjuge.

Alberto também saíra de casa, fazia tempo, mas solteiro. Contudo, todos os anos, naquele dia, fazia questão de ir a casa da mãe, juntamente com Ivo, seu sobrinho, para manterem viva aquela tradição. Porque, ainda hoje, era naquela sala onde todos se juntavam na noite do dia 24 de Dezembro para cearem bacalhau com batatas, couve, grão-de-bico e ovo cozido, regados com muito azeite. E alho e cebola picados com salsa. E fatias de broa de milho. Tudo hidratado com vinho tinto. E, depois disso, a família, que foi aumentando, trocava presentes.

– Ivo, vamos começar pelas bolas mais pequenas, em cima – informou.

– Não é melhor espalharmos todas as bolas, para organizarmos tudo melhor?

Com uma ou outra variação, também este diálogo se repetia ano após ano. E, então, espalhavam em cima do sofá, protegido com uma manta velha, aos quadrados, que era guardada para o efeito, todos os enfeites coloridos. Dezenas e dezenas, acumulados ao longo de Natais sem conta. A regra informal era, por cada um que se partia, compravam-se mais dois. Fora aqueles que, pela sua beleza, justificavam uma aquisição extraordinária.

– Lembras-te deste passarinho, Ivo?

– Aquele a que o meu pai arrancou a cauda, quando era criança?

Alberto riu. Numa manhã gelada, o seu irmão, ainda de pijama, achou que o dito passarinho estaria com frio e colocou-o próximo das velas acesas, no centro da mesa, para que ele ficasse mais confortável. Quase instantaneamente, a sua linda e sedosa cauda de nylon pegou fogo e a toalha de linho, bordada à mão, herdada ao longo de gerações, onde o animal caiu com a cauda inflamada, ficou irremediavelmente danificada. O pânico instalou-se na cozinha, quando a criança lá entrou a correr, na velocidade máxima que as pantufas lhe permitia, aos soluços, sem conseguir respirar nem explicar, em condições, o que exatamente acontecera. Desde esse dia, o centro de natal passou a estar aceso apenas durante as refeições.

– Ele não arrancou a cauda. Ele derreteu-a e, com isso, quase incinerou esta casa até às fundações. Mas a avó achou que o pássaro era lindo demais para ser descartado – continuou Alberto, erguendo-o acima da sua própria cabeça, observando os reflexos no seu peito multicolorido.

– Então, a partir daí, passou a ficar de costas para o tronco da árvore, como forma de disfarçar o seu traseiro incompleto…

O seu sobrinho deu uma gargalhada, enquanto assistia à colocação do adorno, estrategicamente posicionado para atender à necessidade estética de ocultação do defeito.

– E este Pai Natal? – provocou Ivo.

Alberto deu três passos atrás, para observar como a decoração estava indo até ali. Inclinou a cabeça para o lado direito. Algo parecia-lhe desequilibrado.

– Tia Emília – respondeu.

Ivo pousou o adorno, dirigiu-se à mesa da sala e, com o comando, começou a mudar de canais. O Futurama terminara e procurava algo que o agradasse.

– Ela e a avó ainda se falam?

– Achas que esta estrela fica bem aqui? – perguntou Alberto, tentando descaradamente mudar o rumo da conversa, enquanto segurava uma estrela vermelha e dourada, cheia de detalhes em relevo.

– Não queres falar disso? – perguntou Ivo, num tom malicioso, enquanto fazia uma pausa num canal que transmitia uma competição de skate.

Alberto olhou para ele, com um olhar misto de reprovação e diversão.

– Sabes, tenho saudades de quando tu te vestias de Pai Natal e distribuías as prendas na noite da consoada. Era a melhor parte – confessou, pousando o comando e regressando para perto do tio. Voltou a pegar, pelo laço, o boneco que imitava o Pai Natal.

Alberto pendurou a estrela que ainda segurava na mão e permitiu a sua mente recuar uns dez anos. O local era aquela mesma sala, ele com 20 anos, bastante gordo, como sempre fora, enfiado numa roupa de Pai Natal, olhando para os seus sobrinhos, que não disfarçavam nem a alegria, nem a ansiedade que o momento lhes proporcionava. A barba de algodão branco fazia-lhe comichão nas narinas e sentia o suor brotar-lhe do couro cabeludo.

– Oh, oh, oh!

Ivo olhava-o na inocência dos seus sete anos, ainda longe de imaginar que era o tio Alberto quem vinha encarnando, ano após ano, o seu sonho natalício.

– Este ano trouxe uma prenda para a árvore! – interrompeu a tia Emília, fazendo uso da sua voz áspera e esganiçada, enquanto abria uma caixa de aspecto barato. De lá retirou e ergueu, por um laço, um Pai Natal, extremamente gordo e com umas feições distorcidas, claramente comprado em promoção, numa loja de produtos defeituosos. Nunca ninguém, no seu perfeito juízo, daria dinheiro por tamanha aberração.

– Quando o vi não resisti a trazê-lo, porque me fez lembrar o Alberto. É tal e qual, não acham? – perguntou ela, segurando o boneco pelo laço dourado, entre as gargalhadas de todos os presentes, expondo a anormalidade que rodava, lentamente, sobre o seu próprio eixo vertical. – E onde estão as namoradas, Alberto?

Agora, era Ivo quem suspendia o mesmo boneco, em silêncio, na mesma sala, agora vazia, de forma semelhante à daquele dia.

– Por que deixaste de te vestir de Pai Natal?

– Porque todos vocês já sabiam que era eu!

– Não importava. Se te vestisses ainda hoje, todos continuaríamos a adorar, acredita.

Alberto sorriu com as palavras do sobrinho e voltou atrás no tempo, desta vez para um ano mais próximo do atual.

– Oh, oh, oh!

– Estás um espanto! – ironizou a tia Emília, com a sua voz de cana rachada. – Não haja dúvidas que cada um é para o que nasce.

Alberto fulminou-a com o olhar, através do bigode farfalhudo e das fartas sobrancelhas de algodão branco. Uma onda de fúria inebriou-o.

– Mas tenho a impressão que o disfarce começa a ficar justo. Já conseguiste ficar pior do que o boneco da árvore de Natal! – disse ela, olhando para o ornamento. – Não admira que as namoradas não apareçam!

Alberto aproximou-se discretamente da mesa, ao redor da qual os adultos se sentavam. Esta estava cheia de doces natalícios e garrafas de vinho, espumante e refrigerante. Tacinhas com amêndoas, pinhões, nozes, avelãs e passas, que iam sendo depenicadas pelos presentes.

– Quando é que a tia vai fazer de vaca no presépio? – sussurrou suficientemente baixo para que as crianças, um pouco mais afastadas, junto à árvore, não ouvissem.

Instalou-se um silêncio sepulcral à volta da mesa, apenas interrompido pelo restolhar provocado por Alberto, remexendo no saco cheio de embrulhos, tentando imprimir uma normalidade à situação e pelos sobrinhos, que comentavam detalhes da árvore, deixando a imaginação correr solta.

– No próximo ano o melhor é vires vestido de rena, acompanhado por um Pai Natal que te monte! – rematou a tia Emília, num tom de voz estranhamente gutural. Os seus olhos vomitavam ódio.

Alberto pousou o saco e olhou para a tia. Esboçou um sorriso sarcástico.

– Tem que ser de rena? Não pode ser de veado, para me poupar trabalho?

Foi a última vez que Alberto, o Pai Natal daquela geração, distribuiu presentes naquela casa. Os anos passaram, a tia Emília nunca mais lá pôs os pés nem voltou a falar com eles, os sobrinhos foram crescendo e o seu pai faleceu.

Ivo abriu os dedos discretamente e deixou o tal adorno de Pai Natal cair no tapete, onde saltitou duas vezes, até se imobilizar com a cara para cima, numa expressão patética. Sem hesitar, esmagou-o com o seu ténis de skate. Tudo o que se ouviu foi um estalo sonoro. Quando retirou o pé, o boneco mantinha o aspecto aberrante, agora transposto para duas dimensões.

– Obrigado.

– De nada.

– Já devia ter feito algo do género, há alguns anos.

– Às vezes só outros são capazes de matar os nossos próprios fantasmas.

Ivo tirou o telemóvel do bolso e, com a câmara, focou o boneco esborrachado no tapete.

– O que estás a fazer?

– A tirar uma foto para a enviar por mensagem à vaca do presépio, com votos de feliz Natal.

– Um cartão dos tempos que correm, não haja dúvidas – ironizou.

A porta da sala abriu-se e a mãe de Alberto entrou, segurando, com a mão direita, uma chávena de café fumegante. Sorriu, ao ver a árvore de Natal já bastante adiantada. Beijou o filho e o sobrinho-neto e sentou-se numa das cadeiras da mesa, pousando a chávena no tampo de vidro. Trazia um roupão levemente cor-de-rosa, que parecia refletir a luz daquela manhã radiosa.

– Já tomaram o pequeno-almoço? – perguntou entre dois goles de café. A sala cedo ficou embrenhada pelo cheiro maravilhoso de café colombiano acabado de fazer.

– Sim, mãe. Mas estamos a ficar com fome. O Ivo é adolescente e eu um homem de porte – sorriu. – Queres vir à pastelaria connosco?

– Aceito! – informou, de imediato. – Mas só depois de me explicarem por que motivo o Pai Natal está ali espezinhado, no tapete.

– Foi um acidente – apressou-se Ivo a explicar. – Pisei-o sem querer.

– Coitada da tia Emília, se um dia ela vier a saber… – concluiu, antes de dar mais um gole.

Alberto e Ivo entreolharam-se em silêncio.

– Foi um presente muito especial – continuou, assim que pousou a chávena. – De uma namorada.

Alberto deixou cair, com estrondo, no antigo soalho de madeira, impecavelmente encerado, uma pinha dourada, lindíssima, que se desfez em mil pedaços. A sua mãe e o seu sobrinho sobressaltaram-se.

– Alberto Luís, o apaixonado por cenas dramáticas. – repreendeu. – Pelas regras, este ano, contando com o Pai Natal acidentalmente assassinado, já terão de ser comprados quatro novos ornamentos. – informou.

– De uma namorada? – quis saber Ivo, substituindo-se a Alberto, que ainda não recuperara a fala. – A tia Emília era lésbica? É lésbica?

A mãe de Alberto confirmou com a cabeça. E terminou o café.

– Assim é. Infelizmente, Ivo, a homofobia não escolhe nem géneros nem orientações sexuais para se manifestar, ao contrário do que considera o senso comum. – afirmou, com convicção. – A irmã do teu pai, Alberto, poderia ter tido uma vida feliz no seio de uma família maravilhosa. Nunca ninguém a iria acusar ou privar de nada, muito menos votá-la ao ostracismo. Pelo contrário, teria sido recebida como te recebemos: com amor e agradecimento por seres quem e como és.

Fez uma pausa para olhar pela janela.

– Mas há pessoas que não só não estão bem com elas próprias, como ainda têm a necessidade de infernizar a vida dos restantes. Foi isso que o teu pai lhe disse, naquela famosa última noite.

– E ela?

– Ela optou por desaparecer, optou pela amargura. Tinha vergonha de namorar uma mulher. Tinha vergonha que a família soubesse, que os vizinhos soubessem, que os colegas de trabalho, professores na escola onde ela leccionava, soubessem. Porque, acima de tudo, tinha vergonha dela própria. E a vida foi passando.

Ivo olhou para o telemóvel: “Mensagem recebida com sucesso”.

– Como dizia, tia, às vezes só outros são capazes de matar os nossos próprios fantasmas.

* um conto de Miguel Agramonte

 

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