Era uma vez o Natal

Ele viu-a. Mas ela não o viu. Porque tudo o que ela conseguia ver eram fantasmas, saídos e mantidos numa escuridão que a envolvia e não lhe dava tréguas. Ele viu-a. Dias a fio ele viu-a, deambulando a caminho das obrigações que a vida lhe impunha. A caminho de cada lado, nenhum que lhe permitia manter o mínimo de condições para seguir em frente. Mais ninguém a viu, mas ele sim. Ele viu, escondido atrás da velha sebe que separava a casa dela do resto do mundo, quando ele se foi embora. Entregando-a sem misericórdia ao desespero da sorte que teimava em lhe fugir. Ele viu o que o resto do mundo teimava em ignorar, viu os encolher de ombros alheios, os olhares de pena que teimavam em se esconder e de nada lhe serviam, a ela.
Ele viu-a e sentiu o seu pequeno coração apertar-se a cada pegada profunda que os pés dela desenhavam na neve branca do caminho que percorria todos os dias. Era inverno e era Natal. E por isso havia neve.

Ele viu-a, mas ela não o viu. E por isso não viu a doçura nos olhos dele, quando a observava de longe. Quando tinha frio. Quando tinha fome. Quando queimava as almofadas das patas no gelo e neve que cobriam o chão e tinha que arrancar com os dentes as lascas geladas que se acumulavam por entre os dedos cansados. Quando revirava os caixotes de lixo da vizinhança em busca de uma refeição pútrida e era escorraçado com tudo o que as pessoas encontravam à mão, tudo menos algo que pudesse acalmar o estômago vazio que o atormentava. Talvez por isso mesmo a amasse já tanto: ela era invisível como ele, abandonada por aqueles que tinham jurado amá-la e protegê-la. A uns atiravam paus e pedras, ao outro olhares de pena e vazios de intenção.

Mas era Natal. E quando o seu anjo lhe disse que era chegada a hora de cumprir o seu propósito na Terra, ele acreditou nele. E o anjo fê-la brilhar, para que ele a pudesse a encontrar. Ela não o viu, mas ele viu o brilho dela. E passou a caminhar todos os dias ao encontro dela, na distância. Pôs de lado as patas ansadas e passou a caminhar com o coração, porque é certo e sabido que quem segue o coração alcança os maiores tesouros. E ele encontrou o dele. E o anjo ficou contente. Mas ela não o viu. E apesar de ser Natal, a casa dela permanecia imersa na escuridão. Sentiu-se perdido e pediu ajuda ao anjo que o acompanhava e porque pediu, o anjo ouviu. E resolveu que às vezes é preciso recompensar aqueles que pedem ajuda no caminho do seu maior propósito.

Sentado na calçada, ele reparou numa família numerosa que transportava entre gargalhadas e cânticos de natal uma imensa árvore. Reparou nas crianças que saltitavam, carregando sacos repletos de bolas e fitas coloridas que usariam para enfeitar a árvore. E reparou quando uma única bola, grande e vermelha, rolou pelo chão esquecida. Ele era um cão, não conseguia ver as cores. Mas conseguiu ver o vermelho vivo daquela bola, e soube que o seu anjo lhe tinha respondido. A medo, esperou que a família entrasse dentro de casa e a rua voltasse a ficar deserta. Atravessou a estrada, e ergueu a bola vermelha pelo cordão que saía dela. E voltou para trás. Entrou, a medo, pelo pequeno portão entreaberto, e caminhou pelo pequeno caminho empedrado e coberto de neve e folhas secas que cobriam o chão. Por fim, alcançou o pequeno alpendre. Demorou uns segundos a decidir subir os dois degraus que o separavam da porta da entrada, sentou-se, e esperou.

E quando ela voltou para casa naquela noite, perdida na escuridão dos seus pensamentos uma vez mais, por fim viu-o. De frente para os degraus que a separavam da porta da entrada, não viu um pequeno e sujo cão vadio sentado de frente para ela. Nem tampouco viu as pontas das orelhas queimadas, as patas molhadas ou o risco da doença e dos parasitas que assolam quem vive na rua. Não viu um animal sem perdão.
O que ela viu foi a imensa bola vermelha que pendia do focinho dele. E leu nos seus olhos o amor imenso que o seu próprio anjo lhe tinha prometido, quando horas antes tinha decidido que naquele dia a sua vida terminaria. E o primeiro pensamento que lhe passou pela cabeça, enquanto subia os dois degraus e se deixava cair de joelhos junto ao pequeno animal, os olhos rasos de água e os braços perdidos num abraço apertado do qual o pequeno cão não fugiu… foi que nunca mais duvidaria das palavras do seu anjo.

Na manhã seguinte, um sol de inverno que tornava a neve caída durante a noite num imenso e fofo tapete branco encontrou-os saltitando alegremente pelo caminho, em busca da árvore de natal perfeita. E a noite seguinte foi encontrá-los enroscados um no outro no sofá, a lareira acesa desenhando neles as cores do calor e da satisfação.e espalhando no ar o cheiro reconfortante da madeira e das pinhas, que estalavam no que seria com certeza a canção de Natal mais bonita de sempre. Ao canto da sala, tremeluzia em todas as cores do arco-íris a árvore de Natal mais bonita do mundo: a árvore de quem conquista o que a vida lhe prometeu.

* um conto de Vanessa Lourenço.

 

 

 

 

Anúncios

Um pensamento sobre “Era uma vez o Natal

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s