“É um livro que aborda o suicídio e que também fala de homofobia”

Filipe Vieira Branco é o autor de “Deixa-me ser”, um título autobiográfico que conta a sua experiência pessoal no processo de assumir publicamente a homossexualidade. É um livro que aborda na primeira pessoa a homofobia, mas também amor e aceitação.

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De que trata este teu novo livro, que tem um caráter autobiográfico?

Conta a história do meu coming out, do que foi assumir-me como homossexual junto da minha família aos 20 anos e de tudo o que se passou depois disso. É um livro que aborda de forma muito direta o suicídio e que na sua essência fala também de homofobia, preconceito, mas também de amor e aceitação. E fala de outro assunto, que nunca referi na divulgação, porque quero que seja uma surpresa total para quem vai ler. É um assunto ainda mais tabu que a homossexualidade ou o suicídio. É algo de que ninguém quer falar. E sei que vai ser um choque para a maioria das pessoas, mas foi por isso mesmo que o escrevi.

Não é muito normal escrever biografias aos 30 anos, porque o decidiste fazer?

Este livro começou a ser escrito quando tinha 27. Não gosto de chamar-lhe biografia, porque não relata toda a minha vida, no sentido de que ainda tenho muito para viver. Prefiro chamar-lhe livro biográfico, porque conta cerca de 10 anos muito atribulados que passaram por mim. É uma viagem que vai desde não ser aceite pelo meu pai, por ser gay, até conseguir a plena aceitação da sua parte. Havia aí uma história positiva a ser contada. E é isso.

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Desde a publicação do teu primeiro livro – “O dia em que nasci” – muita coisa mudou na tua escrita? Que aprendizagem retiraste dessa primeira experiência?

Na minha escrita não tenho noção, se mudou algo ou não. Continuo a escrever como antes. E só escrevo sobre aquilo que gosto. Da experiência concluí algo mau e algo muito bom. O mau, ou realista, é que é ainda pior tentar ser escritor em Portugal do que tinha inicialmente pensado. E não faço mais comentários sobre isso, porque provavelmente teria que escrever um livro para o justificar. Mas o muito bom é que para o segundo livro tive muito mais pessoas interessadas na obra e muitos apoios espontâneos, até de entidades que não imaginava sequer que tivessem interesse em mim.

Há poucos autores assumidamente gays em Portugal, porque achas que isso é assim?

Acho que é assim porque tal como noutras áreas, como no desporto, cinema, música, etc, ainda há muito preconceito e medo de fazer essa exposição. Temos o exemplo de Hollywood, em que ainda há mais armários do que se pensa. As pessoas não assumem publicamente a sua orientação sexual com medo de represálias… ou mesmo de perderem fãs e trabalho. Lembro-me do Ricky Martin e de um caso mais recente, do skater Brian Anderson, que também decidiu agora aos 40 anos falar abertamente disso e fazer o seu coming out. Ainda que estejam em áreas diferentes, as suas declarações foram muito semelhantes. Não o fizeram antes devido à pressão social… e admitiram que sofreram bastante com isso. Não digo que toda a gente tem que falar publicamente da sua orientação sexual ou identidade de género, porque alguém pode ser feliz mantendo isso privado, mas a maioria dos casos, como estes, mostram-nos que é muito difícil viver constantemente com uma máscara.

O facto de seres homossexual muda ou toca de alguma forma na tua escrita?

Penso que não. Talvez tenha importância na forma como abordo certos assuntos, mas escrevo muito por impulso… então não sei se isso acontece realmente ou não.

E projetos para o futuro, o que já planeias fazer de seguida?

Num futuro próximo vou passar com apresentações do “Deixa-me ser” pelo Porto, Lisboa, Leiria e Covilhã. Irei também a uma escola em Tomar para dar vida a um projeto que me foi proposto pela professora Sandra Barbosa, que leu e fez revisão do livro. Os seus alunos vão fazer um trabalho sobre mim e esta história. E depois levarei essa ideia a outros pontos do país. Já em novembro, o livro vai também fazer parte da cerimónia dos Prémios Áquila, da televisão e do cinema português, como oferta para os vencedores das categorias. Como disse, tenho tido muitos pedidos de pessoas que querem ajudar-me na divulgação. Assim, vou dedicar-me durante muito tempo a esta obra. E daí só podem vir coisas boas. É o que projeto para o futuro.

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