“Desejava que as vendas acontecessem pelo conteúdo e não por ser um livro gay”

Miguel Agramonte escreveu “Quando tu nos mentes”, um romance gay que aborda de forma despudorada o tema das traições nas relações amorosas. Meio ano depois da sua publicação, perguntamos ao autor de que forma este título foi recebido pelos leitores.

miguel agramonte

Como foi a receptividade do público ao teu primeiro livro?

Bastante positiva, melhor do que eu esperava. Primeiro porque sou um autor desconhecido – “Quando tu nos mentes” foi o meu primeiro livro editado –, depois por se tratar de uma história homossexual. Ambas as situações poderiam limitar, à partida, a receptividade ao livro. No entanto, três aspectos contribuíram para o que se verificou: o lançamento do livro em Lisboa,  o processo de venda e o facto de a primeira impressão ter-se esgotado na Feira do Livro de Lisboa.Também muito agradável tem sido a interacção com leitores desconhecidos, principalmente através de mensagens que recebo no Facebook e com quem, na maioria, vou mantendo um contacto pontual e descontraído.

O facto de se tratar de uma história homossexual direcionou-o para um público mais estritamente gay ou sentiste que foi lido por leitores independentemente da sua orientação sexual?

Creio que eminentemente gay. Apesar de saber que tem sido lido por heterossexuais sendo, muitos deles, mães de muitos gays que compraram o livro – muito curioso este feedback que me chegou de vários leitores: as mães tentam entender como é o mundo do filho gay? Também me recordo de pelo menos dois comentários de duas leitoras heterossexuais que me diziam que a história continuaria totalmente válida se as personagens fossem heterossexuais. Acho que este é outro ponto interessante que também daria pano para mangas: afinal os heterossexuais são tão “promíscuos” como os homossexuais?” – a eterna questão. Outro aspecto é que, do feedback que tenho tido, naturalmente limitado e estatisticamente irrelevante, mas nem por isso desinteressante, a maioria dos leitores heterossexuais são mulheres.

quando tu nos mentes

Faz sentido falar de literatura gay ou literatura LGBT?

Esse é um tema recorrente e que está intimamente ligado a rótulos, aliás na linha da questão anterior. Aproveito para deixar claro que, apesar de reconhecer que nalguns casos são necessários, na maioria das situações não me sinto confortável com eles. Não é estranho, na pergunta anterior, ter que diferenciar a leitura do livro por homossexuais e por heterossexuais? Num dia, durante a Feira do Livro de Lisboa, a minha editora optou por anunciar o meu livro através de uma página A4, onde se lia, em letras garrafais, “Literatura Gay”. As reacções contra e a favor não se fizeram esperar. Do lado do “contra” o argumento mais comum é que não há necessidade de publicitar o livro dessa forma, porque acarreta uma limitação do mesmo e do autor. Do lado do “a favor”, surgem as justificações de que, sendo um livro que aborda o tema, tal deve ser assim publicitado. Creio que as posições também são balizadas pelas linhas de pensamento “sou gay, mas não preciso anunciar esse facto aos quatro ventos e as marchas do orgulho LGBT são prejudiciais para os homossexuais” versus “sou gay, tenho orgulho e as marchas do orgulho LGBT são necessárias para dar visibilidade aos problemas dos homossexuais”. Pessoalmente, recordo-me da dificuldade que tinha, há vários anos, para encontrar livros de temática gay nas livrarias. Mesmo hoje não é em qualquer livraria que podemos encontrar uma secção específica dedicada ao tema e também não é em qualquer cidade que podemos encontrar livrarias orientadas para o público homossexual. Portanto, não era fácil encontrar os livros que desejava ler e muitas vezes fazia-o através dos autores que já sabia terem escrito outros livros dessa temática, mas nem sempre essa era uma forma fiável. Por isso, sugeri que o “Quando tu nos mentes” tivesse, na lombada, as cores da bandeira do movimento LGBT. Desejava garantir um equilíbrio entre essa visibilidade e a estética da capa, mas que as vendas acontecessem pelo conteúdo e não pelo simples facto de ser um livro gay, com uma capa tipo panfleto. Como conclusão, termino como comecei: por causa da publicidade feita na Feira do Livro de Lisboa, resolvi abordar o tema na minha página do Facebook, onde publiquei o link para a definição da Wikipedia que começa por esclarecer que “Literatura gay é uma expressão englobante para literatura criada por gays, ou envolvendo personagens, temas ou narrativas no âmbito da comunidade e cultura gay”. Mas é o parágrafo seguinte que acho bastante feliz: “Literatura gay não constitui um género diferente de literatura, mas abarca todos os grandes géneros (narrativa, poesia, teatro, ensaio) e sub-géneros. Trata-se antes de um ramo da literatura, uma classificação de um subconjunto de obras literárias”. Afinal, se temos literatura portuguesa, brasileira, infantil, juvenil, medieval, erótica, policial, etc., por que não haveremos de ter “literatura gay”?

De qualquer forma, em Portugal poucos são os livros que abordam esta temática. Porque é que isto acontece?

Boa pergunta. Talvez porque seja entendido, pelas editoras, que o mercado é reduzido e que, portanto, um investimento em tal temática não trará os dividendos esperados. Apesar de acreditar que possam existir casos pontuais, não creio que seja pelo facto de haver editoras “no armário” ou homofóbicas, que não queiram ver o seu nome associado a tal tipo de publicação. Até porque, muitas delas, publicam livros de autores estrangeiros dessa mesma temática. Também não me parece que seja pelo facto de os potenciais leitores terem receio de comprarem tais obras. Acho que já lá vai o tempo em que isso acontecia – apesar de haver pessoas que me confessam não poderem “gostar” da minha página do Facebook pela exposição que isso lhes poderia trazer. Seja como for, infelizmente é uma realidade para a qual, repito, não tenho uma justificação clara e que acredito estar desfasada do mundo em que vivemos, assim como das realidades espanhola ou brasileira, para citar dois exemplos que nos são próximos.

Estás a preparar mais algum livro? De que se trata?

Sim, estou a trabalhar numa história que já tinha na cabeça há algum tempo. Será novamente uma história com personagens homossexuais, mas que nada tem a ver com o “Quando tu nos mentes”. É comum fazerem-me essa pergunta e, portanto, antecipo-me, respondendo e acrescentando que gosto de me aventurar por novos desafios e modelos de escrita, apesar de, quem me lê, dizer que acaba, sempre, por reconhecer um estilo próprio, como base. Mas prefiro não acrescentar nada mais, para não revelar demasiadas coisas. Escrevo nos meus tempos livres, por prazer, não como profissão. Se um dia essa história vier a ser publicada, então terei todo o prazer em falar sobre ela com maior profundidade.

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