“O amor apresenta-se com uma dualidade terrível de ser gerida”

Cristina das Neves Aleixo é a autora de “Por amor, tudo(?)”, onde aborda a violência doméstica de forma clara e incisiva. Anteriormente, esta autora tinha publicado o livro infantil “Joaninha e o jardim encantado”. Quisemos saber mais sobre o novo título.

Cristina das Neves Aleixo

Este novo livro centra-se no tema da violência doméstica. De onde veio a ideia? 

Estava a escrever um romance que, a determinada altura da estória, mencionava, brevemente, alguma violência doméstica num contexto psicológico. Numa conversa com os meus editores, dei-lhes a conhecer aquilo que estava a criar e, imediatamente, um deles pergunta se eu não gostaria de escrever, a sério, sobre esse tema. Ponderei por um momento; não era essa a minha intenção inicial, mas a ideia fez muito sentido. Lembrei-me que já muita gente o fez, de diversas formas, mas a consciência de que é, infelizmente, uma problemática em crescendo, que atinge cada vez mais as camadas jovens e que diz respeito a toda a nossa sociedade – é um crime público -, fez com que nascesse em mim a vontade de participar na chamada de atenção para este drama. Assim nasceu o “Por amor, tudo(?)”, título que deixa bem claro que no amor existe uma dualidade que deve ser bem gerida. Portanto, esta foi uma ideia conjunta.

Por outro lado, é um livro muito diferente e mais maduro que o seu primeiro título. O que a fez enveredar por um estilo muito diferente da literatura infantil?

Eu gosto de escrever para crianças, mas não é a minha primeira paixão. Prefiro uma escrita mais madura, precisamente, mais crua, através da qual se pode explorar profunda e livremente os sentimentos, sentidos e sensações. O “Joaninha e o jardim encantado” é um livro que eu escrevi para alguém muito especial e que teria que editar em alguma altura; foi o primeiro por um acaso de circunstâncias. No entanto, não descarto a hipótese de voltar a escrever para crianças; gosto daquele brilho inocente e tremendamente verdadeiro no olhar ao folhearem as páginas de um livro que escrevi para elas.

Em “Por amor, tudo(?)” temos um casal que se ama, mas onde afinal o amor se torna possessivo e doentio. O amor é uma arte difícil?

É muito difícil. A vivência a dois não é tarefa fácil. Além da natural gestão diária de gostos, preferências e opiniões diferentes – somos todos semelhantes, mas diferentes – e, por conseguinte, do ajuizado uso de cedências e respeito mútuos, ainda tem que se gerir algo que é tremendamente impetuoso e que, na grande parte das vezes, parece ter vontade própria: o amor. O amor é aquele sentimento que, em quase todas as situações, se apresenta com uma dualidade terrível de ser gerida. Sejamos honestos: se amamos, sentimos ciúmes, inseguranças, desconfiança, sentimento de posse; estes dão origem a alterações na forma de estar, por poucas que sejam e surgem os conflitos, os ressentimentos, as mágoas, as palavras ditas que se perdoam, mas não se esquecem… Mas amamos, o que deveria significar que tudo deveríamos fazer para ver o objecto do nosso amor feliz. Existe também uma dualidade interna, uma luta tremenda do indivíduo perante esta consciência. Não é nada fácil posicionar a ténue linha do limite entre o certo e o errado.

Por amor tudo

Escrever sobre este tema exigiu uma investigação da sua parte? Como foi feita?

Sim. Considero que só é possível criar uma estória, que é fictícia, credível, sabendo exactamente do que se trata. Além disso, este é um tema tremendamente delicado, que merece o maior respeito e não deve ser tratado levianamente. Nesse sentido, pensei imediatamente que teria que, de alguma forma, perceber, sentir os sentimentos, as dores, os receios e dúvidas de quem vive com isto. Além de toda a pesquisa que fiz online, através de estudos, artigos e relatos, contactei a APAV e acabei por conhecer e falar com vítimas de violência doméstica que se encontravam numa casa-abrigo. Foi uma experiência tremenda, extremamente enriquecedora enquanto ser humano, da qual nunca me esquecerei. E preciosa para este livro.

De que forma os leitores têm recebido este livro?

Muito bem. Tenho recebido várias mensagens a dizer que gostaram muito da estória, que está muito bem escrita, com fluidez e intensidade nos pontos certos. Já recebi, inclusivamente, mensagens de ex-vítimas a agradecer-me por ter escrito este livro – já me agradeceram com os olhos inundados pelas lágrimas. Esta é a minha maior recompensa quando escrevo: sentir que consegui tocar alguém, que o trabalho que desenvolvo é válido e tem um propósito nobre. Foi por isso mesmo que quis que parte das receitas deste livro revertessem a favor da APAV; não chegava, simplesmente, tê-lo escrito.

E daqui para a frente? Planos para novas aventuras literárias?

Claro que sim – já me perguntam quando sairá o próximo livro. Eu estou sempre a escrever qualquer coisa, mas isso ainda é segredo.

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