Oíche Nollag – um conto de Natal da autora MBarreto Condado

ash tree

Estava sozinho, prostrado perto da enorme janela da sala, os olhos colados na escuridão da noite. Apesar de pouco distinta àquela hora, a paisagem lá fora tão sua conhecida continuava a acalmá-lo tal como sempre fizera mesmo nos momentos em que andara perdido na escuridão mais glacial que atormentara a sua alma. O vento frio que se fazia sentir e que agitava os freixos não conseguia penetrar no calor do seu lar, naquela casa onde o amor continuava a ser a chama permanente que os aquecia. Caminhou até à lareira onde colocou mais turfa, a sua única função naquela noite era mantê-la acesa e esperar. Contudo, o tempo parecia não querer passar ou então era ele que estava mais ansioso, afinal aquela seria uma celebração diferente, uma reunião de família onde pela primeira vez estariam todos juntos.

Serviu-se de mais um Jameson e caminhou até à enorme mesa que a mãe e a tia tinham deixado cuidadosamente preparada e onde colocara um pequeno presente delicadamente pousado em cima dos guardanapos de todos, sorriu satisfeito. Naquele ano tão especial queria dar-lhes algo que lhes lembrasse o significado de ali estarem, algo para marcar aquele primeiro Natal de muitos que ainda passariam juntos, o início de uma nova Era para toda a sua família. Mas até aquele gesto se acabara por tornar num verdadeiro desafio. Não tinha sido fácil encontrar algo que pudesse ser apreciado por todos com a mesma intensidade, principalmente tendo em conta que eram tão diferentes. Mas ele julgava tê-lo conseguido.

Aquela era a noite em que celebravam a Oíche Nollag (Noite de Natal) e davam início a mais um ano cheio de promessas, de desafios. Ao contrário dos anos passados desta vez não ia pedir nada, ia somente agradecer. Agradeceria por todas as bênçãos que recebera naquele último ano e por todas as novas pessoas que tinha conhecido. Queria agradecer por ser novamente um homem do Clã, por ter os irmãos todos junto de si, pela felicidade das mulheres da sua família, à Deusa por lhe ter dado mais uma oportunidade de ser feliz junto daqueles que amava. Mas queria principalmente agradecer àquela que tinha tornado tudo isso possível, agradecer a Maria. Sabia contudo que tudo o que fizesse nunca seria suficiente para demonstrar o quanto significava para ele, para todos eles, e por muitos anos que ainda vivessem, queria que soubesse que também ele estaria ali, sempre, para ela.

Voltou para perto da janela olhando para a escuridão da noite, aguardando. O vento continuava a sua tortuosa manifestação de força não dando tréguas às árvores centenárias da propriedade. Mas tal como elas, os MacCumhaill também não quebravam.

Viu luzes do lado de fora do portão. Era a sua família que voltava. Chegavam a casa. Sorriu satisfeito. Agora sim a celebração daquela noite podia iniciar-se. Ainda não tinha chegado à porta quando começou a ouvir a voz da prima a refilar com o irmão mais novo. Adorava aquela normalidade.

A porta abriu-se permitindo a entrada de todos. Por fim entrou aquele que mais tinha a ver consigo, a sua metade e a mulher dele. Avançou para ela abraçando-a, levantou-a nos braços começando a rodopiar pelo hall de entrada. Todos pararam, olhando-os animados. Maria ria-se como uma criança, já se devia ter habituado aquelas demonstrações de carinho do cunhado, mas ele conseguia continuar a surpreendê-la.

– Estou muito feliz por te ver. – pousou-a no chão beijando-a – Por vos ver a todos.

– Meu! Tens mesmo que aprender a tirar essas manápulas de cima da minha mulher. – Rhenan puxava Maria para os seus braços, não fosse o irmão agarrá-la novamente.

– Meu filho, estivemos fora somente um par de horas. – Freya passou-lhe a mão carinhosamente pela face.

– Eu sei mãe – beijou-a com saudade – Mas não consegui evitar sentir-me nostálgico aqui sozinho.

– Vamos lá a acabar com esse melodrama barato que eu estou a morrer de fome. – Fionn agarrou no estômago com ambas as mãos tentando dar mais força às palavras que acabara de proferir.

– És mesmo uma besta insensível, não és? – Maeve deitou-lhe a língua de fora.

– Mãe! Vê como a bruxa loira me trata? – sorriu à prima. Não gostava de confessar, mas no seu íntimo adorava aquela troca de mimos entre os dois e achava que o resto da família até estranharia se algo mudasse no seu disfuncional relacionamento.

– Meninos, então! – Freya pousou a mala e o casaco em cima da mesa da entrada e seguiu a irmã que entretanto já se encaminhara para a cozinha. – Sigam-me e ajudem-nos a levar a comida para a mesa, não queremos que o Fionn desfaleça de fraqueza.

– Assim é que é falar mãe. – sorriu-lhe seguindo-a.

E sim aquela era a sua família. Lochan olhava para eles com ternura. Todos ajudaram a encher a mesa com as mais diversas iguarias, naquela noite misturavam-se tradições irlandesas e portuguesas. A árvore de Natal colocada perto da lareira estava cheia de embrulhos, mas ainda viu pelo recanto do olho quando a prima lá colocou mais uns quantos. Parecia uma criança. Estava feliz.

Quando Deirdre fez sinal para que se sentassem, repararam nos pequenos embrulhos ali deixados. Eoghan pegou no seu chocalhando-o, tentando perceber o que estaria lá dentro.

– São teus, Lochan? – Maria segurou no dela com cuidado.

Anuiu com a cabeça satisfeito por os ter conseguido surpreender.

– É uma pequena lembrança para todos.

– Podemos abrir? – Maeve olhava expectante – Podemos?

– Devem. – ainda Lochan não tinha acabado de falar e já Maeve olhava para conteúdo do seu embrulho.

Já todos tinham os seus. Olhavam-no curiosos, mas ninguém falou, sabiam que Lochan não fazia nada sem significado. Gostou de ver a reação estampada na cara de cada um deles. Sorriu-lhes satisfeito, afinal conseguira o seu intuito, surpreendê-los.

– Devem estar a perguntar-se o significado do que vos ofereço hoje.

Continuavam todos em silêncio, olhando-o.

– Pois bem. Quero que saibam que não é fácil comprar uma lembrança para ninguém nesta família, pelo que achei que tinha muito mais significado se arranjasse algo que nos definisse na perfeição e assim mandei fazer o que têm nas vossas mãos – colocou a mão dentro do bolso da sua camisa mostrando-lhes o que guardara – também eu tenho um igual.

Estendeu a mão e todos repetiram o gesto com as palmas viradas para cima. Cada um tinha uma folha de prata finamente trabalhada com cerca de nove centímetros pousada na mão.

– Ofereço-vos estas folhas de freixo como símbolo de proteção e como lembrança de que tal como elas individualmente não significamos nada, juntos somos força, união, não quebramos mesmo perante as mais diversas contrariedades. Juntos, somos amor, somos uma família. E é isso que devemos celebrar nesta noite. A família. – levantou-se erguendo o copo. Todos imitaram o seu gesto.

As vozes elevavam-se ao mesmo tempo.

– À família!

– Slainté!

MBarreto Condado

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