Uma questão de escolhas

casal gay

A noite era negra, imperfeita e ácida, gelada como vidro fazendo parar os pensamentos. Naquela avenida infinita tudo estava parado no tempo, até a vida de André. Sentado no asfalto, encolhe-se e enrosca-se no casaco de malha que traz vestido para enganar o frio que lhe consome o corpo e a alma; parece ser a única coisa que lhe resta: não tem mais nada, nem um mero pedaço de pão. A fome, essa, já aperta há algum tempo; mas eles tiraram-lhe tudo, deixando-o sem nada: sem dinheiro, sem vontade de viver, sem alegria até a dignidade lhe roubaram. O direito a ser feliz, e a fazer as suas escolhas; o direito a um teto, a segurança e proteção; o direito a ter uma verdadeira família.

Olha à sua volta e cruza-se com o vazio da noite cerrada como uma janela que não é aberta há muito tempo. Sente-se sujo, sem amor-próprio, desiludido com a vida. Falta-lhe esperança, carinho e amor: acima de tudo compreensão. Há muito tempo que André não se sentia tão sozinho e abandonado. Para André a vida nunca lhe colocou grandes desafios: teve uma infância feliz, teve a família com que sempre sonhara, os amigos perfeitos. O curso que idealizou: psicologia aplicada. Quem o conhecia dizia que ele tinha jeito para lidar com pessoas, quando surgia um amigo com um problema era junto do André que procurava conselhos e até algum alento. Diziam que ele era um bom ouvinte. Findo o secundário, André não pensou duas vezes e disse logo que queria seguir Psicologia. No entanto, se a Psicologia lhe permitia ajudar outras pessoas nos seus dilemas existenciais, a ele parecia não o conseguir ajudar a encontrar respostas para as questões difíceis com que se debatia. Conseguia até deixá-lo ainda com mais dúvidas.

Ultimamente, André apercebeu-se que havia algo de diferente em si, algo que ainda não sabia descrever e muito menos compreender. Uma forma diferente de estar, uma maneira estranha de olhar. Numa tarde de conversa, depois das aulas, com os amigos, veio à baila um tema sobre o qual ainda nunca tinham falado abertamente: Manel contou aos amigos – a título de segredo – que um amigo seu estava a passar por um dilema complicado: tinha descoberto a sua homossexualidade. O grupo entreolhou-se.

De repente, André ficou lívido e em perfeito silêncio, apático e pensativo. Levantou-se e disse que ia ao café buscar uma água. Sentia-se desconcertado, estranho e desassossegado. Não conseguia deixar de sentir as mãos suadas, acabava de descobrir a maior incerteza da sua existência. Será que ele também era como o amigo de Manel? Não sabia, nem tinha bem a certeza disso; no entanto a dúvida parecia estar lançada. A única certeza que tinha era a de que se sentia nitidamente um rapaz diferente. Aquele parecia ser o primeiro grande desafio que a vida lhe colocava pela frente; mas o pior ainda estaria para vir: como partilhar aquilo com a família. Primeiro pensou em não lhes contar nada, pelo menos por enquanto; mas depois havia o Ricardo. E aquela atração física estranha que sentia por ele há dias, que o atormentava e lhe roubava noites de sono. Primeiro tinha que lhe contar tudo e só depois pensaria na família.

Agora, ali, sozinho, pensava na grande provação que a vida lhe tinha oferecido: quando mais tinha precisado das pessoas de quem gostava, tinha sido quando elas mais lhe tinham virado as costas e o tinham desiludido. E recuou no tempo: até àquela tarde de Outono. Dia cansativo de aulas, cabeça a mil: tinha-se declarado ao Ricardo; mas as coisas não tinham corrido nada bem, pelo menos como ele estava à espera e tinha imaginado e previsto; infelizmente, ao que parecia Ricardo não partilhava do mesmo sentimento por ele, não o amava, como André o amava a ele. E isso tinha-o despedaçado e entristecido, tinha-o deixado sem rumo e de cabeça perdida, sem saber muito bem o que pensar ou fazer. Sentia que lhe faltava o chão por baixo dos pés, que tinha perdido uma das pessoas mais especiais e importantes da sua vida, o melhor amigo, o companheiro de todas as horas. Tinha andado a semana toda a pensar nisso e na chegada daquele dia: o dia em que ia contar tudo à família. Achava que eles não desconfiavam de nada, apesar de ele falar muito do Ricardo e das muitas saídas que faziam juntos, que já davam nas vistas. Só esperava e desejava que compreendessem: entrou em casa, pousou a mochila no quarto e desceu para jantar: cheirava a peixe assado no forno. Sentaram-se à mesa e começaram a jantar: depois da última garfada, André inspirou fundo, e começou a contar tudo aos pais.

À medida que recorda aquele jantar liberta as primeiras lágrimas, ao lembrar-se do que sucedeu a seguir: a mãe ficou boquiaberta, levantou-se muda e de semblante carregado, da mesa e refugiou-se na cozinha, a chorar. Já o pai com a sua personalidade severa e conservadora, levantou-se da mesa: de olhar frio e baço e sem dizer uma única palavra, deu-lhe uma estalada imprevisível. Lembrava-se como se fosse hoje das palavras frias, bem vincadas e desprovidas de sentimento ditas pelo pai: “Era o que mais me faltava ter agora um filho que meteu na cabeça que gosta de homens, imagino o falatório que isso iria dar no meu trabalho e no da tua mãe e na rua junto dos nossos amigos e conhecidos. Não quero andar todos os dias a ouvir comentários, não estou para isso, é que nem pensar. Ou deixas essa vida ou a partir de hoje deixas de ser nosso filho, ouviste?

André explicou ao pai, que o que ele sentia não era algo que se pudesse mudar como se muda de roupa, que era uma questão de sentimentos, de escolhas. Que tinham que as aceitar e respeitar. Que não podiam obriga-lo a ser algo, que ele não era, que tinham que aprender a gostar dele tal como ele era. Mas o pai não esteve com meias palavras: “Não quero saber disso para nada. Sai desta casa, este lugar já não te pertence, deixaste de ser bem-vindo aqui, põe-te lá fora. Rua!!!”.

Eduardo, irmão mais velho de André, tentou interceder por ele; mostrando ao pai que a atitude que estava a tomar não era a mais correta e a mais sensata, que não podia pôr o irmão na rua, apenas e só por ele gostar de alguém do mesmo sexo. Que não tinha o direito de dizer todas aquelas coisas – que o tinham deixado completamente em choque –, como se André acabasse de cometer o maior crime do mundo, que tinha que respeitar as escolhas do irmão e aceitá-lo tal como ele era. Mas o pai parecia completamente fora de si e não ouviu nada do que Eduardo lhe tinha dito e muito menos os seus constantes pedidos para que ele parasse para pensar no que estava a querer fazer. Que não levasse a sua avante. Pegou bruscamente no braço de André e arrastou-o à força para fora de casa, sem um pedaço de arrependimento no olhar e nos gestos, sem dó nem piedade.

André foi forçado a deixar a sua casa, sem poder levar mais nada consigo a não ser apenas a roupa que trazia vestida e uns trocos no bolso: eram as únicas coisas, que ele tinha. De voz embargada, cabisbaixo e com os olhos cheios de lágrimas deambulou horas a fio pela noite dentro, até encontrar aquele recanto – naquela avenida – onde ficou sentado lado a lado com a fragilidade da vida. De repente, reparou na presença de uma carrinha que acabava de chegar – já tinha reparado nela várias vezes, quando passeava à noite por aquela avenida com os amigos, nas suas saídas noturnas –, do seu interior saíram pessoas de várias idades: mas eram essencialmente jovens. Que abriram a parte traseira da carrinha e começaram a montar uma mesa improvisada e a retirar caixas de papelão. Imediatamente, vários sem-abrigo que por ali se encontravam: como André, se foram aproximando da carrinha. André olhava com desconfiança para aquele cenário: nunca na vida se imaginaria a um dia precisar de depender dos outros para se aquecer, para se alimentar: para sobreviver.

Passavam dois dias desde que o pai o tinha posto fora de casa, lembrava-se de todas as noites ficar ali sentado, a olhar para aqueles seres tão diferentes e tão semelhantes a ele: seres do submundo e tentar adivinhar a sua história. O que os teria levado até ali: seria a pobreza da sociedade, a falta de sensibilidade das pessoas, a falta de trabalho, de rumo. O que seria? Pelo menos sempre tinha algo para ocupar o tempo, para se entreter…

De repente, quando menos esperava, um jovem de ar radical; mas bem-parecido: cabelo espetado mergulhado em gel, olhos claros e argola na orelha, aproximou-se dele. Trazia uma bata vestida, no cartão estava escrito que era voluntário numa associação de apoio a sem-abrigo: não fixou o nome. Entregou-lhe uma tigela de sopa quente e um saco de plástico que continha: um pacote de leite pequeno e uma sandes de queijo. André agradeceu timidamente e de ar bastante comprometido; uma vez que, quem olhasse para ele sabia de imediato que ele nunca poderia ser sem-abrigo: vestia roupas boas, e apresentava um aspeto limpo e cuidado. Não tinha mesmo ar de quem passasse por dificuldades, comparativamente com as outras pessoas que por ali pernoitavam: roupa suja e velha, pele escurecida como terra, cabelo despenteado e aquele cheiro nauseabundo entranhado na pele.

Continuou a ser assim, a vida e a rotina de André, nos dias seguintes; durante o dia André deambulava pela cidade, gostava de se sentar onde calhava para observar as pessoas: as suas rotinas, as suas maneiras de ser e estar, de agir. Gostava de estar ali sozinho a debruçar-se sobre a vida e o dia em que também tinha sido tão feliz como aquelas pessoas. E tudo por culpa daquela malograda opção de vida, de ter descoberto que afinal era homossexual, preferia não ter sabido. Preferia não o ter descoberto, e quem lhe dera poder voltar atrás e mudar tudo. Afastar o Ricardo da sua vida.

À noite, aquela carrinha voltava; assim como aquele rapaz simpático que lhe trazia sempre a única refeição completa que podia comer: era simpático e afável, ainda nem sequer sabia o seu nome. À medida que o tempo foi passando, o jovem dos olhos claros e de argola na orelha: de seu nome Rui Pedro, estranhou a presença contínua de André naquele lugar. Ele era demasiado novo para estar ali, para viver aquele tipo de vida, ficou intrigado com o motivo que teria levado tão jovem rapaz até àquele lugar; por isso, um dia de manhã – bem cedo – foi ter com ele e convidou-o para tomarem o pequeno-almoço juntos numa pastelaria ali perto. André mostrou-se renitente e desconfiado ao início; mas depois acabou por aceitar, sentaram-se à mesa e enquanto comiam, Rui questionou-o acerca da sua presença naquele lugar: noite após noite.

André ficou algum tempo calado e introspectivo, sem saber muito bem o que dizer, como se explicar, por onde começar; mas Rui parecia não querer desistir e incentivou-o a partilhar consigo a sua história sem receios ou medos. E ele perdeu as inseguranças e os medos e contou-lhe tudo, aquele momento tinha sido tão bom, há algum tempo que não desabafava assim com ninguém sobre o que sentia e pensava. Rui ouviu tudo com a máxima atenção, do princípio ao fim, sem fazer grandes perguntas e muito menos julgamentos, acabou por se rever praticamente na totalidade na história do André e comoveu-se. Percebia bem o que o André estava a sentir e a forma como estava a pensar; mas ao mesmo tempo ficou perplexo e chocado com a história dele: com o dilema que ele estava a viver, com a falta de compreensão e de apoio familiar: a recusa da sua família em aceitar a sua escolha, a falta de diálogo e de aconselhamento. De tudo.

André chegou a confidenciar-lhe o forte desejo de pôr termo à vida, pelo simples facto de não estar a conseguir saber lidar com a situação, por amar uma pessoa que não partilhava do mesmo sentimento que ele, por achar que não passava de lixo para a sua família. Rui – mesmo não o conhecendo de lado nenhum – mostrou-se desde logo disponível para o ajudar e sentiu-se na obrigação de partilhar com André a sua história: tão idêntica à dele. André ficou espantado e ao mesmo tempo um pouco aliviado por não ser o único no mundo a passar por aquele problema; havia mais rapazes a viver o mesmo.

Rui mostrou a André que apesar de aquele ser um obstáculo que ele teria que descobrir como ultrapassar, de a sua família não aceitar a sua opção, do conflito de sentimentos que estava a viver e de todos os percalços que aquela situação lhe pudesse ter trazido para a sua vida. Era sempre possível, seguir em frente e passar por cima de tudo aquilo, explicou-lhe que não iria ser fácil, que teria que lutar muito; para conseguir fazer valer os seus ideais e acima de tudo conseguir conquistar o respeito dos demais. Mas que a luta iria valer a pena mais tarde. Incentivou-o a não desistir. Propôs-lhe que falassem com o psicólogo da associação – onde era voluntário – que ajudava a associação quando os casos eram mais complicados ou sensíveis, para que ele pudesse atuar atempadamente junto da sua família, convidando-os para uma conversa. André comoveu-se com a vontade, a espontaneidade, o espírito de abertura e disponibilidade de Rui; mas foi forçado a explicar-lhe que apesar de a ajuda do psicólogo ser de facto uma grande ajuda não passaria de uma ajuda infrutífera. Os pais nunca aceitariam falar com um psicólogo para abordarem aquele assunto, nem nunca o iriam aceitar tal como ele era; até que André se lembrou do irmão. Talvez ele aceitasse.

Trocaram números de telefone e Rui prometeu dar-lhe notícias em breve; antes de se despedirem, convidou-o a acompanhá-lo até à associação, onde poderia pernoitar e ficar mais resguardado e seguro. André, não tinha outra escolha: ou ficava mais, umas quantas noites, ao relento ou aceitava o convite de Rui. E ele acabou mesmo por aceitar. Criaram imediatamente laços fortes e inexplicáveis. Não eram laços de amizade, não eram laços de amor. Eram tão, somente, laços.

À parte de tudo isto, os amigos de André andavam loucamente desesperados à sua procura, o telemóvel dele continuava desligado, em casa diziam-lhes que não sabiam nada dele e eles não sabiam o que fazer mais para obterem notícias suas. Uma explicação perante a sua ausência e o seu súbito desaparecimento. André emocionou-se quando chegou à associação: não lhe faltava amor, carinho e compreensão. Não lhe faltava um teto para dormir e não havia nada, que pagasse o sentimento de alívio e segurança que sentia. Estava feliz e já tinha tomado uma decisão: no dia seguinte iria com o Rui distribuir comida e agasalhos aos sem-abrigo, queria muito fazer parte daquela experiência.

Não tardou que Rui lhe trouxesse novidades: o psicólogo da associação estava pronto para o ajudar; por isso Rui disse-lhe que iria ligar naquela tarde a Eduardo, para combinarem tudo. O irmão de André nem queria acreditar no que ouvia do outro lado da linha: o irmão tinha vivido na rua sem qualquer tipo de ajuda ou de aconchego, sem dinheiro para as necessidades mais básicas ou para fazer um simples telefonema. Chorou e culpou-se amargamente pelo facto de não ter feito nada. Rui proporcionou um encontro entre os dois irmãos: um reencontro intenso e emocionado. Por entre lágrimas e pedidos de desculpa, André abraçou o irmão, como se o abraço fosse a única maneira de lhe lavar a alma. Confidenciou ao irmão que estava muito magoado com a atitude e comportamento discriminatórios do pai, com a sua frieza e insensibilidade, e que se sentia bastante triste pelo facto de a mãe ter assistido a tudo impávida e serena, sem ter dito nem feito nada e ter sido completamente condescendente com tudo. No entanto, também sabia que a mãe e o irmão não podiam ir contra as decisões e atitudes do pai porque ele era uma pessoa bastante autoritária e imprevisível, que não gostava nada de ser contrariada e que numa situação inesperada podia não responder por si. Já não era a primeira vez que isso acontecia….

Eduardo prometeu-lhe que brevemente, tudo ficaria resolvido. E em menos de vinte e quatro horas, o doutor Carlos estava – em plena hora de jantar; Eduardo achou que seria a melhor hora – reunido com a família de André. Ao início a conversa não foi uma tarefa nada fácil, os pais de André recusaram-se a falar sobre o assunto, chegando mesmo a evitá-lo; foi Eduardo quemamenizou as coisas e aliviou o peso daquele ambiente. Eles deram inequivocamente a entender que, para eles, a homossexualidade do filho era como se fosse obra dos infernos. Que ele não era normal, que não era algo digno e aceitável e que ele tinha que ser severamente punido por essa sua opção, por ser pecado. O pai parecia mesmo intransigente. Eduardo, por seu lado, estava incrédulo perante as declarações dos pais – principalmente do pai –, não queria acreditar no que ouvia. Aqueles não eram os seus pais, pelo menos aqueles que ele tinha conhecido e com quem tinha crescido.

Conversaram seriamente sobre o conflito de sentimentos que André estava a viver, as várias questões e dúvidas que o assolavam, a forma como os pais tinham reagido à sua escolha; assim como a falta de compreensão e apoio familiar. André vivia dentro de um dilema que não estava a conseguir resolver sozinho e precisava mesmo de ajuda: tanto de um profissional como da própria família para poder ultrapassar a situação da melhor forma possível sem sofrer grandes danos emocionais. Mas os pais de André pareciam não querer saber disso nem preocupar-se muito com os problemas do filho: se ele tinha problemas, tinha que os resolver sozinho, que não os metesse nisso.

O psicólogo mostrou-se profundamente preocupado com a atitude e recusa deles; fê-los perceber que a homossexualidade, não tinha mal algum, que era uma opção de vida que as pessoas tinham que aprender a aceitá-la; ainda que a sociedade actual não se mostrasse preparada para isso. Mas que, mais cedo ou mais tarde, esse passo teria que ser dado, afinal de contas, as pessoas não são todas iguais, não fazem todas as mesmas opções de vida. E esse seria o aspeto fundamental para a evolução da humanidade.

Gerou-se um silêncio seco, incómodo e pesado entre todos; os pais de André e Eduardo mostraram-se renitentes em seguir os conselhos e dicas do psicólogo, porque não iam de encontro às suas crenças. Eduardo explicou-lhes que eles não podiam continuar a agir daquela forma com o André, que não podiam continuar a bani-lo da sua vida por uma coisa da qual ele não tinha culpa, que era apenas e só uma escolha pessoal dele. O psicólogo reforçou o facto de André – apesar dos seus 22 anos e de já ser um adulto – ainda se estar a tentar conhecer a si próprio, ainda estar a tentar perceber o que realmente sentia, que não era nada fácil gerir todas aquelas mudanças, assim como conviver e aceitar que se é – de certa forma – diferente das outras pessoas. Que à partida não se ama da mesma maneira. No fundo, André precisava que o ajudassem a reencontrar-se…

Prometeram tentar mudar e aceitar o filho tal como ele era: ainda que fosse algo difícil. Eduardo disse ao outor Carlos que a partir daquele momento iria lutar e fazer muito por isso; que nunca, jamais, o André voltaria a passar pelo mesmo que tinha passado. O doutor Carlos mostrou-se mais aliviado e calmo. Durante o decorrer daquela conversa, André aproveitou para se encontrar com os amigos, com os quais já não falava há muitos dias, explicando-lhes assim as razões para o seu desaparecimento. Nem queriam acreditar no que ele lhes contava, mostraram-se desde logo bastante solidários com ele, disponíveis para o ajudarem, apoiaram-no desde o primeiro momento. Abraçaram-no, consolaram-no e pediram-lhe que não chorasse e que fizesse um esforço por reerguer-se, mostrando a sua garra e que era muito superior àquelas pessoas. André emocionou-se.

Durante os dias que se seguiram, continuou a ficar alojado na associação – não podia voltar já para casa, pelo menos por enquanto; tinha que deixar que, os pais refletissem, acerca das atitudes e dos comportamentos, que eles tinham tido, para com ele. Não podia mostrar assim tão cedo que tudo tinha ficado resolvido. Ainda nada estava resolvido, tudo iria depender deles. Todas as noites, André ia jantar a casa de um amigo diferente – eles assim lhe tinham exigido – para tentar espairecer um pouco e esquecer as voltas que a sua vida tinha dado e as confusões que pareciam não ter solução à vista. Eles não queriam que ele ficasse sozinho, queriam continuar ao seu lado para o poderem ajudar em tudo o que ele precisasse nomeadamente na resolução dos seus problemas.

Ficava sempre estarrecido com o amor e carinho que recebia da parte das famílias dos seus amigos, mal o conheciam mas tinham para com ele verdadeiros gestos de carinho e ternura. Lembra-se particularmente de uma dessas noites, em casa da Sofia, durante o habitual café, André aproveitou a deixa para desabafar um pouco. Ninguém ficou indiferente ao sentimento de solidão, angústia e desolação que os olhos dele transpareciam; por isso num acto mais ou menos imprevisível, a mãe de Joana aproximou-se dele acariciou o seu rosto – como só uma mãe sabe fazer – e de seguida abraçou-o. Naquele abraço forte e apertado que reconforta qualquer um e lhe mostra novos caminhos a percorrer.

O tempo foi passando, André e Rui Pedro foram – aos poucos – construindo cada vez mais laços, tornaram-se grandes amigos, cúmplices e companheiros. Gostavam de se ajudar mutuamente e acima de tudo resolviam sempre juntos, todos os problemas e percalços que surgiam. Há muitos dias que André não se sentia tão feliz e tão leve, parecia que tinha renascido: tinha voltado a sorrir, a ser rebelde e descontraído; tinha voltado às saídas com os amigos, o que amenizou imenso os seus problemas e as duvidas que ainda podiam persistir.

Quanto ao Ricardo, nunca mais tinha sabido nada dele; tinham seguido caminhos diferentes. Mas também era verdade que, apesar da falta de contacto entre ambos, ele queria muito poder voltar a falar com ele para tentar perceber o que se tinha passado entre ambos. Como é que ficava a amizade deles? Porque é que ele tinha deixado de manter contato com ele? Esperava um dia poder descobrir as respostas a essas perguntas.

André decidiu voltar à faculdade e ao curso de Psicologia deixado em stand by durante aqueles últimos dias, já Rui há muito que tinha desistido de estudar; no entanto, André incentivou-o a inscrever-se num curso profissional. E ele decidiu arriscar, tinha começado há duas semanas e estava a gostar muito e a descobrir que afinal estudar até valia a pena. No final de uma tarde preenchida com muitas aulas, o André e o Rui decidiram ir descontrair até uma esplanada na baixa: a mesma esplanada onde tinham conversado a primeira vez. Era um lugar especial e inesquecível. Sentaram-se e pediram duas cervejas, André acabava de soltar uma valente gargalhada depois de contar a Rui uma peripécia passada naquela mesma tarde na faculdade. Rui acompanhou-o naquele fragmento de sorriso. No entanto, desde que tinha chegado que Rui não tinha parado de olhar para André, nos últimos dias os sentimentos por ele pareciam ter mudado radicalmente. A amizade que os unia continuava lá presente; mas sentia que havia algo mais: um forte desejo, uma espécie de atração física inevitável. Rui fora-se apercebendo que amava André, que ele era a pessoa que gostaria de ter ao seu lado, com quem gostava de estar. E tinha chegado a altura de partilhar isso com ele.

Rui ganhou coragem e contou tudo abertamente a André, que inicialmente se mostrou estupefato; confidenciando de seguida que há já alguns dias que se tinha apercebido que sentia o mesmo por ele. Mas com toda a instabilidade que a sua vida tinha levado, tinha acabado por ainda não lhe ter contado nada; no entanto pretendia fazê-lo o mais depressa possível. Ao que parecia o momento tinha-se proporcionado sem ele ter feito nada, impulsionado pelo acaso. Rui pareceu não se importar, pousando uma mão em cima da dele e por breves momentos sorriram e entreolharam-se meios apaixonados.

A medo, André arriscou na pergunta mais difícil: perguntou a Rui se queria namorar com ele e ele nem hesitou na resposta: disse-lhe que sim. André chorou de felicidade, finalmente alguém o aceitava, o respeitava e gostava dele tal como ele era. Rui disse-lhe estar disposto a enfrentar a sua família, a estar ao lado dele em todos os bons e maus momentos, a nunca desistir dele. Continuariam a ser os melhores amigos e companheiros e acima de tudo poderia contar sempre com ele para tudo o que precisasse. Não queria que nada mudasse entre eles, que ele continuasse a sentir-se à vontade para partilhar tudo com ele. André concordou com tudo e prometeu cumprir. Rui sorriu e acariciou-lhe o rosto suavemente; a atmosfera entre eles começava a aquecer.

Inesperadamente, no preciso momento em que André e Rui trocavam o primeiro beijo das suas vidas, Ricardo surge no café. Olhares antigos cruzaram-se, corações do passado relembraram-se. Mas o que magoou, ficou para sempre. André não se coibiu de mostrar a Ricardo o erro que tinha cometido ao virar-lhe as costas e o quanto amava Rui. Quando a sua vida parecia não ter mais rumo, tinha sido ele a ajudá-lo a erguer-se e esses gestos eram mais importantes que tudo.

Para André a troca daquele beijo foi algo estranho, algo novo: uma experiência, nunca antes vivida. Mas há muito desejada e não se tinha sentido nada inibido. Era especial aquela nova forma de olhar para o amor, ter aquela oportunidade única de conhecer o Rui mais a fundo, podendo tocar-lhe e senti-lo sabendo que tudo era tão mútuo. Saíram juntos, abraçados e de dedos entrelaçados do café. André decidiu contar ao irmão que ele e Rui estavam juntos, ele mostrou-se feliz por finalmente André ter encontrado o caminho certo e a pessoa certa. Eduardo teve a ideia de organizar – naquela mesma noite – um jantar em casa para que os pais se fossem habituando à nova realidade; uma vez que tinham simpatizado imenso com o Rui. Primeiro estranharam a situação, fazia-lhes alguma confusão o amor que André sentia pelo Rui, o facto de ambos andarem de dedos entrelaçados na rua e aquela cumplicidade tão intensa que os unia; mas depois acabaram por aceitar e até proporcionaram um bom ambiente. Até disseram que ficavam bem juntos e perceberam que não podiam rejeitar o André nem desrespeitar as suas escolhas. E pediram desculpa pelo sofrimento causado. Eduardo ficou satisfeito e agradado.

Terminou o jantar, André e Rui foram até ao alpendre, para poderem estar um pouco sozinhos a conversar, estavam felizes e abraçados um ao outro, André acabava de partilhar com Rui o facto de se sentir completo com ele a seu lado; em cima da mesa estava uma revista aberta numa página onde se salientava a seguinte frase: “A maneira de amar pode ser diferente; mas o amor… Esse nunca mudará. Será sempre igual ou quem sabe talvez ainda maior”. E assim foi…

* um conto de Ana Ribeiro

 

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