“Fernando Pessoa tem para nos dar tudo aquilo que quisermos”

Ricardo Belo de Morais é um especialista em Fernando Pessoa, que surpreendeu com a publicação de “O quarto alugado”, em 2014. Depois desta biografia ficcionada, o autor volta com “Fernando Pessoa para todas as pessoas”, obra de divulgação novamente centrada no poeta. Conversamos com Ricardo Belo de Morais para entender este fascínio, as motivações para os dois livros e outros projetos que guarda para o futuro.

Ricardo Belo de Morais

As suas obras aparecem umbilicalmente ligadas a Fernando Pessoa, de onde vem o seu fascínio pelo poeta?

Fernando Pessoa foi-me apresentado, nos meus 17 anos, por uma tia materna, que trabalhou no reator nuclear de Sacavém e foi professora de física e química do ensino secundário. Apesar de ser uma cientista, a minha tia Teresa percebeu desde cedo que as humanidades eram o meu destino vocacional e deu-me a ler Miguel Torga, Jorge de Sena, Albert Camus, Aldous Huxley, Florbela Espanca e, naturalmente, Fernando Pessoa. O meu fascínio por Pessoa começou aí. Quando o percebeu, a minha tia ofereceu-me a magnífica biografia pessoana “Estranho Estrangeiro”, de Robert Bréchon e o meu interesse e leituras pessoanas nunca mais pararam de crescer. Hoje olho por exemplo para o meu livro de estreia, “Paixão ou A Batalha Contra as Sombras”, uma antologia poética há muito esgotada e vejo ali muitas influências de Fernando Pessoa. Há três anos, depois de muitos revezes da fortuna em termos profissionais, tive a oportunidade de ingressar na equipa da Casa Fernando Pessoa. Senti-me como um urso no meio de um armazém de mel e obviamente aproveitei para lambuzar-me com os livros da biblioteca da casa-museu. Absorvi-os com voracidade e dei comigo a especializar-me cada vez mais. Ao mesmo tempo, apercebi-me que os incríveis trabalhos de investigadores pessoanos, ao longo de décadas, não chegavam ao público dito “médio”, com muitas aspas. Senti que vida e obra de Fernando Pessoa ainda estavam muito dentro da Academia e senti que tinha a oportunidade e a obrigação de abrir o leque da divulgação pessoana. Criei o projeto online O Meu Pessoa e os meus artigos chamaram a atenção do investigador e editor pessoano Jerónimo Pizarro, que me abriu ainda mais portas para este mundo. Devo-lhe muito, na minha evolução pessoana.

“O quarto alugado” era uma biografia de Fernando Pessoa, narrada por um dos seus amigos (e afinal heterónimo). Em que é que se distingue este novo livro?

“O quarto alugado” foi um exercício profundo de investigação, crivado de criatividade. Os factos sobre vida e obra de Fernando Pessoa estão todos nessa biografia romanceada, mas permiti-me também espaço para colocar muito de meu, na parte ficcionada que cimenta a narrativa. Também foi um livro construído com muitas baias, muitos espartilhos. Aquilo que me propus fazer foi um trabalho biográfico que seduzisse todo o tipo de leitores, mas que ao mesmo tempo honrasse o trabalho hercúleo dos investigadores que lideram os estudos pessoanos. Podia ter vendido zero exemplares de “O quarto alugado”, porque perceber que consegui fazer nele um compromisso, sem comprometer a qualidade do resultado final, já teria sido uma vitória que me bastaria. Em “Fernando Pessoa para todas as pessoas”, diria que a diferença principal é o facto de este novo trabalho ter menos de meu e mais de Fernando Pessoa. Aqui interessa apenas mostrar Pessoa, divulgar Pessoa, explicar Pessoa. Eu sou meramente o veículo dos factos pessoanos. A minha criatividade está apenas na maneira como os exponho e na forma de organização que escolhi.

“Fernando Pessoa para todas as pessoas” o que traz de novidade?

É um livro que não quer ensinar. Quer sim, divulgar. Para ensinar Pessoa, temos milhares de professores fantásticos por esse país fora, nos liceus e nas universidades, fazendo o seu trabalho pedagógico tantas vezes em condições que deveriam envergonhar-nos enquanto país. O meu “Fernando Pessoa para todas as pessoas” é isso mesmo, para todos. Dos estudantes e professores do ensino secundário até aos académicos e universitários, mas principalmente para o público em geral. É um livro que quer ser o mais abrangente possível, com a vida e obra do escritor, o ortónimo, os heterónimos e as personagens fictícias, a família, os amigos, as influências literárias, as etapas marcantes, os lugares que o escritor frequentou e as suas paixões. Depois tem uma cronologia que se estende, pela primeira vez em décadas de estudos, para lá da morte de Pessoa em 1935, chegando até 2015. Achei que era importante mostrar o que aconteceu, mundo fora, até aos nossos dias, de modo a transformar Pessoa num fenómeno sem fronteiras. Depois criei dois outros capítulos “fora da caixa”, um com perguntas frequentes e outro com curiosidades, sempre a querer mostrar o homem além do escritor e desfazer alguns dos mitos e erros mais comuns, ainda hoje ligados à vida e à obra de Fernando Pessoa. Finalmente, é a primeira vez que alguém publica em livro o levantamento exaustivo dos principais apócrifos pessoanos: textos que Fernando Pessoa nunca escreveu, mas que ainda assim são publicados e reproduzidos, como se fossem de sua autoria, na comunicação social, na internet em geral e nas redes sociais em particular. Estes apócrifos são, no meu entender, os maiores inimigos de Pessoa. E urge identificá-los e denunciá-los, para que não se espalhem.

FPPTAP

De que forma estes títulos têm sido recebidos pelo público?

Os primeiros ecos que tenho recebido em relação ao recém-editado “Fernando Pessoa para todas as pessoas” dão-me conta de muito agrado quanto à organização temática da obra e ao estilo de escrita escorreito. Mais, ainda é cedo para dizer. Quanto a “O quarto alugado”, ainda hoje, quase um ano depois do lançamento, continuo a receber elogios, que vão do agrado feliz até ao entusiasmo. Eu não preciso de mais que tudo isto que já tive. Só desejo que as vendas continuem a bom ritmo porque a minha editora, a Verso de Kapa, mais que merece essa vitória e esse retorno pela aposta que fez ao investir no meu trabalho.

Esse interesse é apenas nacional ou recebe comentários e feedback também de leitores estrangeiros?

Além dos leitores portugueses, destaco os leitores brasileiros, claro. Tenho testemunhos de leitores do Brasil que roçam a comoção. São livros comprados cá que viajam para o outro lado do Atlântico e de lá vão-me chegando estes comentários. No mais, batemos na barreira da língua. Há muitas críticas e retornos positivos de leitores falantes de inglês, italiano, espanhol e francês, mas são pessoas que ou estão radicadas em Portugal ou falam português como uma das suas línguas estrangeiras.

Há projetos para traduzir algum destes dois livros?

“O quarto alugado” está já quase todo traduzido para inglês, por mim. Há agentes internacionais com interesse no livro, vamos ver se isso se traduzirá em edições futuras noutros mercados e noutras línguas. O “Fernando Pessoa para todas as pessoas”, parece-me um livro marcadamente vocacionado para a lusofonia.

Fernando Pessoa transformou-se num ícone de Lisboa, mas talvez a dimensão profunda da sua obra não tenha ainda chegado a todos. O que é que Pessoa ainda tem para nos dar?

Começa por ainda ter cerca de cinco mil “papéis” do seu espólio que permanecem inéditos. E muitos deles ainda por decifrar. Ainda há, só neste sentido, trabalho para décadas de investigação e muitos novos livros. Objetivamente falando, é isto. Subjetivamente falando, Fernando Pessoa tem para nos dar tudo aquilo que quisermos, quanto mais quisermos deixar de o ver apenas como poeta. Foi prosista, contista, publicitário, dramaturgo, argumentista, ensaísta, crítico, filósofo, cronista… Estas vertentes ainda estão muito pouco lidas, comentadas e interiorizadas.

À medida que escreve e ficciona sobre Pessoa, o Ricardo transforma-se num recriador, mas também numa personagem do universo Pessoa. Em qual dos dois papéis se sente: o ficcionista que cria sobre Pessoa ou o autor que escreve o que Pessoa tem para lhe dizer?

Por enquanto, vejo-me principalmente como o autor que escreve aquilo que pensa ser o que Fernando Pessoa gostaria que eu contasse. Com intuição para as nuances e respeito absoluto pelos factos. Julgo que só estarei à vontade para me arrogar a veleidade de ser um ficcionista a criar sobre Pessoa quando eventualmente escrever teatro ou cinema onde o escritor seja personagem. Em palco ou no ecrã é mais fácil e mais legítimo pisar alguns riscos.

Tem planos para escrever fora do universo de Pessoa? Para quando uma obra que aborde outras temáticas?

As minhas gavetas e discos rígidos externos autorizam-me a responder que sim, planos há muitos. Tenho quase prontos um romance híbrido entre o policial e a crónica de costumes e um quase-ensaio que pretende ser uma charla aos livros ditos de auto-ajuda. Quero também, o quanto antes, voltar a editar a minha poesia. A minha relação superlativa com a editora Verso de Kapa privilegia o meu trabalho enquanto investigador pessoano, mas não terá de limitar-se a isso, no futuro. O nosso acordo é mostrar-lhes primeiro tudo o que eu escreva. Se entenderem que essas obras não se enquadram na sua linha editorial, posso procurar outras editoras que me acarinhem como a Verso de Kapa tem feito.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s