“Há cidades que nos absorvem até um dia fazerem parte de nós”

Pedro Rodrigues

Imagino-te cantada por vozes de que não conheço o rosto. Através das quais invento esquinas, perpetuadas entre o musgo e as fissuras do tempo. És bela como cidade, como menina, como moça. E cheiras bem: como se me sentisse em casa, mesmo estando longe.

Construímos cidades por dentro, com o que apanhamos por fora. De ti, de momento, vou guardando as luzes diluídas na noite. Os barulhos dos aviões a levantarem voo, ou a aterrarem. Os passeios à beira rio, a olhar a outra margem. As buzinadelas estridentes, que me fazem acordar de manhã.

Não há canções suficientes para seres cantada. Não há postais suficientes para que quem chega te consiga levar até outros lugares e te explicar. Se em todas as tuas ruas me perco, em todas as tuas ruas me encontro. Se soubesse cantar, cantava-te. Se soubesse desenhar, desenhava-te. Não sei. Fico-me pelas palavras: ferrugentas, ásperas, curtas. Fico-me pela imagem da minha sombra a namorar a tua calçada e as tuas paredes. Fico-me pela velocidade vertiginosa das tuas gentes, das quais, agora, faço parte. Há um fado escrito com as águas do teu Tejo. Um país que gira em torno do teu eixo.

Dizem que casa é algo que se encontra – não é um ponto fixo num mapa. Deve ser por isso que começo a construir paredes à tua volta. A ver-te crescer por dentro, com todas as avenidas e ruas periféricas. Há ilhas na corrente. E cidades que nos absorvem, até um dia, sem darmos conta, fazerem parte de nós.

PedRodrigues

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