“Tu gostas de rapazes, não é?”

Filipe Vieira Branco é um jovem autor que, depois da publicação do seu primeiro título – “O dia em que nasci” – prepara agora o lançamento de um livro autobiográfico, onde relata as dificuldades decorrentes da revelação familiar e pública da sua condição homossexual. Esta é, em exclusivo, a pré-publicação das primeiras palavras desse novo livro (ainda sem título), evidenciando já as linhas mestres do que aí vem.

Filipe Vieira Branco

Dentro de mim havia medo, apenas medo. O meu pai estava à espera lá fora, perto da estação. Entrei no carro e demoramos cerca de 20 minutos a chegar a casa, sem uma única palavra pronunciada. Recordo pouco desse trajeto, porque foi como se não estivesse ali. Os meus pensamentos não acompanhavam o que ia realmente acontecendo, nem os sítios por onde passava, pois eram demasiado dispersos e confusos.

Tinha acabado de chegar no comboio regional procedente da Covilhã, com paragem no Entroncamento. E nunca uma viagem tinha parecido tão longa, nunca a minha ansiedade de chegar tinha sido tanta. Mas aquelas quase quatro horas de caminho deram-me tempo suficiente para pensar no que me aguardava à chegada. “Serás bem recebido? Serás expulso de casa?” – dentro de mim vozes gritavam os meus medos, enquanto por fora uma camada fina de arrogância tentava mostrar a segurança que era impossível eu ter num momento daqueles. Agora já estava em casa, no lugar exato onde uma semana antes tudo o que havia dentro de mim tinha rebentado cá para fora.

O pai, a mãe e a minha avó esperavam que tivesse algo a dizer sobre isso, que tivesse algo a acrescentar à carta que lhes tinha deixado escrita antes de ir embora – a carta que a mãe tinha agora nas mãos. A minha mãe, o meu porto seguro, mantinha um olhar gélido de quase indiferença, que não me permitia saber se eu estava em segurança ou não. E as vozes dentro de mim gritavam cada vez mais alto.

Vivi durante anos reprimido, mas o meu momento tinha chegado. Resolvi escrever, porque por receio ou por vergonha não consegui expressar-me a falar. Tínhamos discutido violentamente em casa, porque eu andava insuportável, a chegar ao limite das minhas forças e falar mal para todos era, para mim, algo completamente natural naquela altura.

No dia em que discutimos ainda estava também a digerir os últimos resquícios de uma ressaca que era o meu estado mais comum noite após noite, como a minha única desculpa para evitar a assombração que vivia durante o dia e por isso metade de mim nem sabia exatamente o que dizia. Afinal era mais fácil sair com os amigos, beber e fingir a alegria que não sentia só para não ter que lhes dizer que por dentro eu estava completamente destruído, à beira de ter um colapso mental. Por isso naquele dia, depois de termos gritado tudo, senti-me completamente sozinho, mas cheio de coragem e sentei-me a escrever, para contar a razão do meu comportamento.

“Sou homossexual, gay ou algo que temo que não aceitem. O rapaz que conheceram o ano passado não era apenas um amigo, era alguém como eu e com quem tive uma relação”. Foi assim que o revelei, com mais detalhes a ilustrar. Dobrei as folhas que escrevi, coloquei-as num envelope e deixei-o no quarto dos pais, para que o abrissem quando eu já não estivesse ali. Fiz isso mesmo antes de o pai me levar à estação do Entroncamento, onde apanhei o comboio que me arrastava até à Covilhã, cidade onde estudava.

Admito que a minha revelação não terá sido completamente uma surpresa, pelo menos para a mãe e para a avó, mas mesmo tão longe quase senti o estalar da consciência deles ao lerem aquilo. No entanto, passei uma semana inteira sem um telefonema, sem qualquer pista sobre como tinham reagido. Agora estava a um passo de o saber.

A avó ainda estava sentada à mesa a acabar de jantar no momento em que cheguei à enorme divisão da casa que juntava a cozinha e a sala. A mãe estava um pouco mais afastada, em pé junto à janela que dava para o quintal. Ambas em silêncio. E aquele espaço todo que sempre tinha sido tão acolhedor para mim, era agora tão desconfortável, como se fizesse sentir-me mais pequeno, ali perdido.

E agora, como podia explicar tudo ali, frente a frente? Como podia dizer à avó que ela estava certa quando há muitos meses ela tinha pedido que me sentasse num banco ao seu lado e colocando uma mão sobre a minha perna tinha perguntado diretamente: “Tu gostas de rapazes, não é?”. Foi a primeira pessoa da família a ter tamanha perspicácia e coragem para o perguntar. Assim, sem mais nem menos, fazendo-me tremer todo por dentro, fazendo-me dizer que não, que disparate era aquele, que devia estar maluca para pensar uma coisa dessas.

“Estavas certa, avó, porque ninguém me conhecia melhor que tu, por isso ajuda-me  agora” – pensei, na esperança de que a telepatia resultasse. E não resultou. E ela ajudou-me, é verdade, apelando ao entendimento entre todos. A mãe também tentou perceber-me, apesar de estar revoltada comigo, mas ainda mal tínhamos começado a falar e o pai já estava em lágrimas, derrotado num sofá ao meu lado a suplicar para que eu dissesse que tinha escrito aquilo só para os provocar.

Disse-lhe que não se tratava disso, que era sério e isso só serviu para aumentar o desespero dele, que agia como se tivesse caído em desgraça. E eu não sabia como lidar com isso ou como podia defender-me. A avó tentou acalmar a situação, justificando que podia apenas ser só uma fase minha. Ela sabia que não era, mas também sabia que não fazia mal tentar mascarar o assunto assim por agora. Faltaram-me os argumentos e a estabilidade para aguentar as palavras dele quando disse que talvez um psicólogo pudesse ser útil para fazer passar a ‘doença’ que eu tinha.

Mais revolta, mais gritos e tudo menos compreensão invadiram a sala quando ele chorou sobre o que as pessoas do nosso meio iriam pensar e dizer de mim, como se eu tivesse acabado de cometer um crime por ser assim. A revolta incendiou-me e impossibilitou qualquer diálogo, levando-me de novo para o mundo onde me refugiava sempre, um mundo que apenas existia dentro de mim.

Tranquei-me no quarto e tentei forçar-me a adormecer, talvez acordasse e tudo não passasse de um sonho mau, mas demorei a dormir e ainda tive que inventar uma mentira a uma amiga, que desculpasse o porquê de eu não sair naquela noite. Depois disso fiquei apenas ali deitado, imóvel, a sofrer sobre tudo o que tinha acabado de ouvir, até finalmente ceder ao desgaste físico e emocional que tinha.

Nessa madrugada acordei a tremer, porque aquele meu mundo estava a desmoronar-se. Nem já aí eu estava seguro.

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Um pensamento sobre ““Tu gostas de rapazes, não é?”

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