“Com atenção, descobrimos todas as caras de um gato”

Joaquim Semeano é o autor de “Todas as caras de um gato”, um novo título que a Capital Books lança em outubro próximo. Trata-se de uma antologia de contos surrealistas, que inevitavelmente recorda os famosos “Contos do gin-tonic” de Mário-Henrique Leiria. Fomos conversar com este autor, que já nasceu apaixonado pelos jornais e que agora assina, com a mesma facilidade, contos, poesia e obras de ficção.

Joaquim Semeano

“Todas as caras de um gato” é uma coletânea de contos surrealistas como, há muito, não se lia. Onde é que o Joaquim Semeano andou estes anos todos?

No jornalismo: 25 anos no jornal Record, como redator e editor de secção, desde que em 1987 concluí o curso de comunicação social na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa; a partir de outubro de 2012 passei a jornalista freelancer, publicando em alguns sites na internet e como colaborador na revista Super Interessante.

A sua vocação para escrever nasceu e desenvolveu-se em que circunstâncias?

A vocação, penso, nasceu comigo. Antes de entrar na escola, aos seis anos, já lia jornais. E é desse vício, o da leitura, que nasceu o da escrita. Ainda tenho coisas muito interessantes da minha infância: um jornal, “O Curioso”, escrito à mão; e um folhetim de banda desenhada com heróis curiosíssimos. Vivia numa pequena aldeia do Ribatejo, era um rapaz tímido e com uma imaginação incontrolável. As minhas maiores alegrias eram quando o meu pai me trazia um livrinho de banda desenhada, daqueles com histórias do faroeste ou as aventuras do Tarzan, ou pequenos livros com fábulas, muitos deles da coleção Formiguinha, que hoje só se encontram em alfarrabistas. Por isso, foi muito rápido, fácil e natural, chegar às histórias de ficção. No início da minha adolescência, escrevi sucessivos romances inspirados pelos autores que ia descobrindo, de Júlio Dinis a Eça de Queiroz e Camilo; hoje são histórias ingénuas, mas percebe-se o entusiasmo que tive na altura. Claro que a paixão da escrita apenas aumentou com o passar dos anos: entusiasmei-me com José Saramago e Gabriel Garcia Márquez, fiquei fascinado com Fernando Pessoa. E passei também a escrever poesia. Na escola secundária de Coruche, venci um concurso de poesia e regularmente textos meus eram publicados no “DN Jovem”, um suplemento que o “Diário de Notícias” tinha para os escritos de jovens leitores. Mais tarde, enquanto já frequentava o curso de comunicação social em Lisboa, fundei, com um grupo de amigos, um jornal na minha aldeia, chamado “O Aldeão”. Durou três anos. Entretanto, com a chegada de uma carreira profissional, tornou-se impossível manter o projeto. Mas eu, paralelamente, continuei a escrever ficção, poesia, pequenas histórias, a enviar coisas para concursos e em 2011 tive a compensação, ao vencer o prémio Maria Rosa Colaço, de literatura infantil, com “Era uma vez um nariz”. O livro foi editado em 2013. Simultaneamente, nestes últimos anos, vários contos e poesias meus têm integrado antologias em Portugal e no Brasil. A paixão mantém-se e continua em pleno desenvolvimento.

Estes contos parecem ter sido escritos de rajada, num repentismo. Foi mesmo assim, ou o seu processo criativo é mais complexo?

Sim, pode considerar-se que foram escritos de rajada: são 80 contos, escritos em 80 noites consecutivas. Na altura, estava a frequentar um curso de escrita criativa e a minha professora lançou-me o desafio: escrever todos os dias, para o mesmo espaço, sem falhar e sem me preocupar demasiado com a qualidade e o sentido do que escrevia. Decidi fazê-lo todos os dias, antes de adormecer e a verdade é que, talvez pela noite, por acontecer no final de um dia cansativo, quando se para, estes contos começaram a ter, todos, um sentido comum e eu fui percebendo que havia um laço que os ligava, que embora fossem diferentes, todos juntos formavam um corpo bastante interessante.

Que autores admira? Em alguns deles buscou inspiração para estes contos?

Somos marcados por autores diferentes em fases diferentes da nossa vida. Mas é verdade que alguns se mantêm para sempre. Desde que li os “Cem anos de solidão”, Garcia Márquez nunca mais me largou. Mas antes já me fascinara com Camilo Castelo Branco, Soeiro Pereira Gomes, Jorge Amado e Tolstoi. Atualmente, tenho dificuldades em resistir a um Luis Sepúlveda ou a um Haruki Murakami. Estes contos, contudo, não nascem propriamente destas leituras: se algum autor influenciou esta minha faceta surrealista, esses foram certamente Boris Vian e Mário Henrique Leiria.

Os contos são a sua praia, ou também gosta de escrever noutros formatos e estilos?

Os contos são uma bela praia para mim. Mas não a única. Sinto-me bem com histórias curtas, de cariz infantil ou não. E tenho muita coisa escrita neste formato. Mas também já escrevi algumas ficções, mais ou menos longas e esses são projetos que tenho sempre a avançar. Uma dessas ficções, o romance “A aldeia suspensa”, está publicado pela Amazon, desde o início deste ano. Também gosto bastante de escrever poesia, é algo que faço a todo o momento e em qualquer meio, num pedaço de papel à mão ou no telemóvel.

E, já agora, “todas as caras de um gato”? De onde vem este título?

De uma forma simplista, poderia dizer que se trata da imagem na capa do caderno onde os contos foram escritos… Mas é um pouco mais do que isso e tem a ver com o tal subtítulo sobre “a nossa vida para lá do espelho”. Na verdade, o gato é um daqueles animais cuja cara parece inexpressiva. A não ser que os conheçamos bastante bem, parecem ter sempre o mesmo olhar. Mas se estivermos atentos, se formos suficientemente audazes, se não tivermos medo da nossa imaginação, descobrimos todas as caras de um gato. E é uma descoberta maravilhosa…

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