“Estou a preparar-me para dar voz à minha geração”

Pedro Rodrigues nasceu na Figueira da Foz, vive em Coimbra e é reconhecido como um dos melhores escritores portugueses desta nova geração. Para contrariar o seu reservado perfil pessoal, quisemos saber mais sobre o homem por detrás do escritor.

Pedro Rodrigues

És um rapaz de 28 anos, mas já contas com dois livros publicados. Foi assim tão fácil?

Aprendi, com o tempo, que nada é fácil. Tive a sorte de alguém ter encontrado os meus papéis perdidos pelas gavetas e me ter incentivado a criar o blog. Mas nem a decisão de mostrar ao mundo os meus textos foi fácil. Depois disso, o resto é história. Quando penso no meu percurso desde novembro de 2010 até hoje, vem-me sempre à cabeça uma passagem de uma crónica do Miguel Sousa Tavares, que li quando era muito jovem e me tem servido de mantra ao longo dos anos: “quem é bom, acaba fatalmente por se impor”. Até pode parecer presunçoso da minha parte, mas é esta a verdade. E ser bom, mais que uma caraterística da pessoa, é algo que se procura. E procuramos, caminhando, sem desistir.

Como é que fazes para escrever? Isolas-te no teu quarto durante uma semana, ou vais para uma esplanada na praia e bebes umas imperiais?

Não há melhor aliado que o silêncio. No entanto, precisamos de viver para escrever. Portanto, tudo pode começar no café, entre amigos. Posso começar a escrever aí. Porque a atenção ao detalhe é importantíssima. Porque ouvir, ver, cheirar, provar, tocar é necessário.

Escreves imenso sobre relações e amor, parece que já tiveste dezenas de namoradas. De onde é que ganhaste tanta experiência sobre relacionamentos?

Através da minha família. Tenho a sorte de ter sido criado com bons valores. Olho os meus pais e avós desde que me conheço como gente, as relações entre eles. A minha avó morreu há nove anos e desde então, faça chuva, faça sol, lá vai o meu avô ao cemitério para lhe beijar a fotografia na campa e rezar um pouco. Todos os dias antes de adormecer, ainda lhe pede que olhe por nós. Os meus pais seguem-lhes os passos e, consequentemente, eu também.

O teu primeiro livro demonstra a impossibilidade de um amor. És um pessimista no que toca ao tema?

Não sou pessimista, sou realista. Tudo acaba, um dia. Mas enquanto aqui andarmos, somos eternos. Não há amores eternos, mas há amores de uma vida. O livro não foi escrito como uma forma de expor um amor impossível. É a tentativa de responder a uma questão que me atormenta desde a morte da minha avó: “quando perdes o que há para perder, o que te faz continuar?”

Tens uma legião enorme de fãs. Tens muitas meninas a pedirem-te namoro?

Tenho? A palavra legião é demasiado grande, para uma pessoa tão pequena. Já me pediram em casamento, já me pediram em namoro, já me pediram para beber café, ou até apenas uma noite… Mas acredito que isso não aconteça apenas comigo. Faz parte da vida e não é algo específico para a pessoa A, ou pessoa B.

A família parece ser uma dos portos seguros da tua vida. És um homem que pensa em casar, ter muitos filhos e acalmar?

No imediato, não penso nisso. Esses são os maiores passos que alguém pode dar. Construir uma família não é algo que se faça de ânimo leve. E o mal, hoje em dia, é que tanta gente tenha pressa em criar algo, que não sabe muito bem o quê. Daí haver tantos divórcios, que se complicam havendo filhos. Deve ser um choque terrível para um filho, ver as suas fundações desfeitas. Quero dar ao meu filho e à minha companheira, as calorias de amor que também recebi da minha família.

Cada vez há mais jovens a tentarem o seu espaço na escrita. Um conselho para quem está agora a começar?

Não comecem algo porque é fixe, ou está na moda, ou pode levar à fama. Hoje em dia, os jovens focam-se muito nestes pontos. Eu vejo isso. Não fazem nada por amor à arte, por gostarem realmente de escrever. Eu comecei muito novo e nunca pensei que pudesse chegar aqui. Escrevo porque é aquilo que sei fazer, é a minha arte, a minha terapia. Se gostava de poder viver apenas da escrita? É esse o sonho. Poder fazer o que gosto e ainda viver disso: é o sonho de qualquer um. Os meus ídolos abominam, ou abominavam, a fama. Alguns morreram na miséria. Mas criaram obras de arte que inspiram milhões de pessoas.

Há meses anunciaste um novo romance, voltado para o facto de haver muitos jovens a emigrar, por falta de empregos. O que estás a preparar?

Estou a preparar-me para dar voz à minha geração. O que é um enorme desafio. Há muitos gritos mudos…

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