“Isto é o que eu sempre quis”

O Filipe Vieira Branco publicou o seu primeiro livro, “O dia em que nasci” pela Capital Books, em abril deste ano. Vive na pacata cidade de Torres Novas, mas abala para a Toscânia italiana, para fazer voluntariado, já no próximo mês de setembro. Fomos falar com ele para saber mais coisas sobre o que é isto de ser escritor aos 29 anos.

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Para quem nunca ouviu falar, quem é o Filipe Vieira Branco?

Sou um jovem autor que sonhou publicar um livro. Realizou-se. A par disso, sonho também em escrever guiões para cinema ou televisão. E sou apaixonado por ficção científica, fã de Star Wars e viciado nos comics da DC e Marvel. Estudei jornalismo, gosto de Saramago e de filosofia.  Em poucas linhas, acho que já mostrei que o Filipe é alguém com gostos muito versáteis. E nem falei de tudo.

No começo de 2015, andavas deprimido. De repente, publicas um livro e pareces um pássaro fora da gaiola. Escrever foi a tua terapia?

Uma terapia daquelas! De facto, não foi assim tão simples, foi um processo de reconstrução pessoal. E claro que a publicação do livro veio ajudar muito, como motivação para não parar de seguir aquilo que queria realmente para mim. E isto é o que eu sempre quis.

Tu és um jovem escritor gay. Que diferença faz seres gay? Na tua vida e na tua escrita?

Na minha vida faz muita diferença. Podia falar sobre preconceito durante horas, mas vou focar-me em coisas mais positivas. Portanto, na minha vida isso faz de mim alguém que todos os dias sente que tem de lutar por um mundo melhor, onde haja mais aceitação e inclusão. Isso é muito positivo, pois canalizei algo mau para algo bom e é por isso que faço voluntariado nesse sentido, porque quero ajudar jovens que já passaram pelo mesmo que eu passei e passo. Na minha escrita, não acho que tenha influência direta. Ou não me sinto obrigado a seguir esse tema só porque sou assim. Por exemplo, nunca incluí um personagem LGBT numa estória que tenha escrito, pois nunca achei que algum deles se sentisse assim. Os meus personagens não têm à partida uma sexualidade definida, pois acho que isso não deve ser o cartão de visita de ninguém. A não ser que fizesse mesmo sentido na estória, não iria incluir um personagem gay só porque sim. Acho que isso seria preconceituoso. Mas claro que, por muitas vivências que só passei por ser assim, haverá sempre alguma inspiração disso quando escrevo.

Porque é que não há uma literatura gay em Portugal?

A minha resposta se calhar vai um pouco contra o que acabei de dizer, mas acho que não há uma literatura gay porque ainda ninguém soube investir nisso. Talvez haja falta de coragem ou de motivação. Há alguns autores que já publicaram sobre o tema, mas nenhum se destacou. Nesse sentido, irei futuramente tentar a minha sorte, ao publicar o meu livro autobiográfico, que já está escrito, mas à espera do momento certo para sair… do armário. Volto a falar na questão dos personagens, pois neste livro o personagem sou eu próprio e aqui já senti que fez todo o sentido falar da minha orientação sexual como uma condicionante na minha vida. O livro falará sobre muito do que passei por nascer assim. Spoiler: não foi nada fácil. E espero despertar as atenções para este tipo de literatura, mas também para algo muito importante: a homofobia tem que acabar, deixem-nos ser felizes, não fizemos mal a ninguém por nascer assim.

“O dia em que nasci” foi o teu primeiro livro. Onde te inspiraste?

Inspirei-me numa geração de jovens que foi superprotegida pelos pais e que, de repente, ficou sem um futuro estável. Por isso, o personagem que criei, o Tomé, está preso numa cave, pelo próprio pai. E ao sair dessa prisão, percebe que afinal estava a ser protegido de um mundo completamente decadente, que não lhe dá segurança alguma. É engraçado que já recebi o comentário de uma leitora que veio ter comigo e disse “ninguém merece viver preso num armário… oops… numa cave”. Perceberam?

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O que mudou na tua vida no antes e depois de seres um autor com um livro e começares a ser reconhecido?

Existe a minha vida antes do livro e depois do livro, de facto. Eu nem tinha uma página no Facebook e tive que criar uma. Nesta página recebo muitos comentários, mensagens e feedback dos leitores, ou de pessoas que apenas passam para me desejar sorte e fazerem algumas questões curiosas (até já recebi uma mensagem de um senhor a dizer que Jesus me iria salvar, só ainda não percebi bem de quê). Sem a publicação do livro, nunca teria passado por algo assim. Para além disso, tenho sentido também presencialmente o apoio de muitas pessoas e percebi que, de certa forma, passei a ter mais valor para elas. Mas ainda é tudo muito recente, costumo dizer que ainda nem processei bem tudo o que está a acontecer desde a publicação do livro.

Vais agora para Itália, para dez meses de voluntariado. Que expetativas levas?

Espero crescer como ser humano, no ato de ser voluntário, mas também no ato de conhecer outras pessoas e outra cultura. Espero também conhecer muito de Itália, que é um país que queria visitar há algum tempo. Agora vou viver lá, o que é completamente outro nível. E quem sabe, não trago de lá muitas ideias para outro livro… decerto que será uma experiência única e que me dará muito para contar.

Se tivesses todo o tempo e talento do mundo, que história gostavas de escrever?

Gostaria de escrever uma saga de ficção científica à Star Wars, no aspecto de sair em episódios, não no aspecto da estória em si. E, claro, que fosse depois adaptada para filme, com a minha supervisão. O cinema e a literatura são duas paixões minhas e gostaria de juntá-las um dia destes. Ah… e gostava também de escrever o guião de uma banda-desenhada do Batman. Sonhar não custa.

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